Seja bem-vindo (a) a sua Neverland virtual!

Aqui você encontrará tudo sobre o anjo e homem Michael Jackson e também poderá conhecer pessoas com os mesmos gostos que você. Irá conviver e aprender muito mais sobre este artista e ser humano maravilhoso que é Michael Jackson!

Faça parte da nossa família você também! Michael Jackson não é só um cantor e sim uma filosofia de vida!

------- Equipe Neverland -------

Você não está conectado. Conecte-se ou registre-se

[FINALIZADA] Lábios Vermelhos

Ir à página : Anterior  1, 2, 3, 4, 5  Seguinte

Ir em baixo  Mensagem [Página 4 de 5]

76 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Ter Set 11 2012, 09:31

MirellaOliveira


Super Fã
Super Fã
Capítulo 22

- Estou dizendo, Davey – Norman mantinha-se segura. – Nancy Gray é Tracy Gummer. Compare no jornal.

Davey lhe tomou o Los Angeles Times de semanas atrás, amassado e dobrado por diversas vezes, deu uma ligeira olhada. Balançou a cabeça.

- Está tentando dizer que tenho uma pré-homicida trabalhando aqui?

- Exatamente.

- Isso se chama delírio, e está precisando de um psiquiatra. Agora vá embora.

Norman não se moveu, fitava-o apenas.

- O que você está me dizendo é um absurdo! – continuou Davey – Mas é claro que não é Nancy. Claro que não! Santo Deus, não posso nem imaginar... a idéia é aterradora. E além disso, Tracy Gummer é foragida de Nova York, Nancy veio do Texas.

Norman revirou os olhos, impaciente.

- Ela mentiu. E veja, elas se parecem, somente os cabelos que estão de outra cor e comprimento.

- Isso é loucura.

- Se o que chama de loucura é verdade, infelizmente não há muito que lhe fazer.

- Está enganada. Estou cheio de trabalho e perdi parte de meu tempo com você.

Norman dobrou o jornal e guardou-a na bolsa, foi até a porta e virou-se para Davey.

- Tem mais, aquele “amigo” dela é muito suspeito. Preste atenção nisso, Davey.

Norman andou investigando. Davey levantou os olhos.

- Farei isso. Agora vá.

Quando ela saiu, Davey encheu-se de ar e fechou os olhos por um momento.

Louca.

Madame Norman foi até um orelhão e discou um número. Depois, alguém atendeu:

- Departamento de Investigação da Polícia de Nova York, Detetive Steven Hunter, sim?

Tracy Gummer seria desmascarada.

Tracy Gummer pediu para que Joey a deixasse frente ao restaurante de Davey, e esperou que ele virasse a esquina para entrar no automóvel de vidros fumê.

Paige fechou o zíper de seu vestido, calçou seus saltos scarpin e pintou a boca de batom Dior. Pegou as chaves do carro e desceu os lances de escada.

Hélène pendurou os brincos de Paige nas orelhas, desamarrou os cabelos e agitou-os. Sentiu-se linda.

Ambas saíram de encontro a Michael Jackson.

Michael estava com Terry quando um empregado anunciou:

- Eles chegaram.

O jogo teria seu início.

Momentos depois, vendo que tudo corria bem, Terry se aproximou de Michael com um sorriso e uma taça de champanhe entre os dedos.

- Isso não poderia estar melhor, caro amigo. – E ele olhava deslumbrado para tudo. – Ainda hoje terei aquele contrato assinado.

Michael se perguntou o porquê de tamanho interesse naquela parceria. Não fazia idéia. Mas para Terry, o motivo não podia estar mais claro: dinheiro.

Terry voltou a falar, sorvendo antes um gole de sua bebida.

- Lembro-me que disse que conseguiu alguém para tocar essa noite. Parece que não deu muito certo.

Michael permanecia emudecido. Terry olhou para ele de baixo à cima.

- Parece tenso, tente relaxar, Michael. Está tudo bem.

Nada estava bem, e Michael realmente sentia-se tenso. De poucos em poucos minutos tornava a consultar o relógio, ansioso. Tracy já deveria estar ali. Precisavam conversar, Michael necessitava de respostas e tinha certeza que Tracy as possuía, por mais que as omitisse.

Alguma coisa aconteceu... alguma coisa.

Michael havia mandado seu motorista para buscá-la, e não deveria estar demorando tanto.

Será que ela desistiu?

Tracy não se dera conta, mas quando Joey virou a esquina ele não seguiu em frente como pensara. Aguardou que o suspeito automóvel de vidros fumê surgisse para assim descobrir o que estava havendo. Algo estranho pairava no ar, e Tracy parecia nervosa naquela tarde:

- Joey, preciso que me leve até o restaurante hoje, um pouco mais cedo.

- Algum problema?

Ela respondera de imediato:

- Não.

Claro que tinha. Tracy estava tensa, Joey a conhecia o suficiente para saber. Suas mãos estavam tencionadas com força, fazendo o sangue acumular nas pontas dos dedos.

Ele descobriria.

O automóvel parou em frente a uma imensa propriedade, aguardou uns segundos até que os portões se abrissem e depois sumiu adentro.

O que Tracy faria lá?, especulava Joey no exato instante que uma viatura policial passava de rotina próximo aonde estava. Ele desligou os faróis e motor, escorregou o corpo para mais abaixo do banco e esperou que o som aterrorizante de sirene se dissipasse.

Não bastava a polícia de Nova York, mas agora também havia a de Los Angeles.

Furtos de automóveis davam um bom dinheiro ao se revender suas peças, e os oficiais de lá sabiam disso.



- Terry Terence – Michael ouviu alguém chamar seu amigo.

Para sua surpresa, Terry pousou a mão no ombro de Michael fazendo-o virar para seus convidados.

- Kenny Nolan e Claire Nolan.

Claire se mantinha agarrada ao braço de Kenny, usando um caríssimo vestido vinho Chanel com um casado de buclê combinando.

- Achei que não se importaria que eu os convidasse. - continuou Terry, sorrindo para Michael e depois ao casal. - Eles estão aqui na cidade e seria bom que saíssem um pouco do hotel, e pensei que essa seria uma ótima oportunidade para que se conhecessem melhor.

- Oh, eu também penso assim – disse Claire. – Sua casa é maravilhosa. Temos muito a falar, Sr. Jackson, e...

Michael interpelou:

- Nos dêem licença por um minuto, sim?

Ele puxou Terry para um canto:

- O que deu em você? Devia ter dito que não aceito parceria alguma!

Olhou de esguelha para o casal que conversavam. Passou um empregado servindo champanhe, cada pegou uma taça.

- Michael, dê uma chance à garota. – Insistia Terry. – Vamos, vamos voltar para lá e vocês conversam com calma.

- Eu já disse que não! E não era para eles estarem aqui! Terry, eu disse para não transformar minha casa em uma balada, e é o que você está fazendo!

Terry acenou e sorriu para Claire e Kenny. Disse com o canto da boca:

- Não vou expulsá-los, se quiser, faça-o você. Ainda me agradecerá por estar insistindo nessa parceria.

- Estou dizendo que esse era pra ser um jantar de negócios, e você transformou numa festa, ou sei lá como se denomina isso.

- Não seja antiquado, por favor!

E Terry se virou indo de encontro à Claire e Kenny, deixando Michael só, de sobrancelha erguida, incrédulo. Consultou o relógio mais uma vez e depois ergueu o pescoço esperançoso em encontrar alguma figura parecida com Tracy. E ali estava ela, desorientada em meio aos canapés, vinho, japoneses e empregados. Ele foi até ela, tomando-a pelo braço, sussurrou:

- Não fale nada, venha comigo.

Na verdade, Tracy não teve tempo de dizer coisa alguma, Michael a arrastou para o mais interior do casarão, foram para seu escritório. Uma escrivaninha com um computador de última, livros numa ampla estante e um tapete redondo no assoalho compunham o cômodo. Trancou a porta. Quando o viu girar a chave na fechadura, Tracy indagou com a voz alterada:

- Mas o que pensa que está fazendo?

Ela foi até ele e tentou tomar-lhe a chave. Inútil. Michael era mais alto e ele teve de erguer a mão para que ela não alcançasse.

- Deus, você parece uma adolescente! Fique quieta. – Pediu ele.

- Eu só quero que você abra essa porta!

- E eu só quero conversar com você e evitar que...

Kenny Nolan estava lá embaixo junto com sua esposa - ele não esquecera a matéria do Jornal.

Não, de forma alguma eles não podem se ver. Não aqui.

Tracy suspirou, não ouvindo muito bem o que ele terminara de dizer, deixou para lá e apoiou-se na beira da escrivaninha, espalmando as mãos pelo rosto.

Ela inquiriu, desdenhosa:

- O que é? Sequestro? Vai me entregar à polícia? Eu devia ter imaginado. Isso tudo estava muito suspeito.

- Não, eu não vou lhe entregar a polícia, Tracy.

Paige havia chegado há um tempo e não encontrando Michael, especulou que ele estivesse acertando os últimos detalhes do jantar. Paris a encontrou e a levou para o local mais sossegado, próximo à piscina. Estava com saudades de Paige e tinha muito que falar.

De onde estavam, tinham uma visão ampla do que acontecia lá dentro, e foi quando Paris estava entre “Chocolate e Blanket” que ela viu um vulto muito similar a Michael passar depressa, acompanhado de alguém. Talvez uma mulher. Paige se levantou.

- Vou ao banheiro, querida. – Mentiu. – Espere um momentinho.

Quando ela já estava alguns metros de distância, Paris lhe gritou:

- Vá depressa, mamãe!

E sorriu. Aquele sorriso de criança.

Paige sentiu seus olhos marejarem. Gostaria muito de ser a mãe dos filhos de Michael. Gostaria muito de ser a mulher de Michael. Gostaria.

Michael havia dado ordens expressas para que seus filhos não saíssem dos quartos e deixou que Hélène ficasse atenta a isso.

- Hélène, tenho certeza que será um jantar movimentado que teremos hoje, peço para que cuide para que eles não desçam. Estarei muito ocupado. E não quero que vejam meus filhos. Sei que você entende.

- Clarro, monsiuer. Clarro que si.

Paris não estava no quarto quando Hélène foi lhe levar leite com biscoitos.



- Terry – era Paige.

Terry se virou.

- Um momento.

O grupo de empresários que ele conversava deu-lhe licença.

- Paige... – a voz insinuante. – Não me lembro de ter-lhe convidado. Está tão bonita e... – Ele foi para tocá-la. Paige deu um passo atrás.

- Sabe onde está Michael? Não o encontro em lugar algum.

Terry revirou os olhos.

- Desista, garota! Michael já está em outra e isso é dos tempos!

Paige não pôde conter seu desapontamento.

- Isso não é verdade, eu sei. Só me diga onde está Michael.

- Não faço idéia de onde ele possa estar.



Hélène olhou debaixo da cama, foi nos quartos de Blanket e Prince, e eles já dormiam, menos Paris. Correu pelo salão movimentado e nada. Começou a entrar em desespero. Não queria nem pensar na reação de Michael, mas tinha de falar com ele. Imaginou que ele estivesse no escritório e seguiu para lá.



- Tracy, estive preocupado por anos – desabafava Michael. – Depois do desaparecimento de Diana eu passei a procurá-las. Não obtive uma pista de onde vocês pudessem estar. Deus, fiquei tão preocupado.

Tracy nada disse. Podia se lembrar dos gritos de sua mãe pedindo para que ele saísse. Depois do retorno dele, sua mãe havia lhe dito para que quando algo pior ocorresse, ela fosse para Nova York atrás de sua tia, Lise. Ela tinha um comércio por lá, mas Tracy nunca entendera bem o que se tratava, até fazer parte dele.

E Tracy abraçava sua mãe com toda a força e dizia palavras de conforto:

- Não, mamãe, nada vai acontecer. Vamos ficar bem. Vamos ficar juntas, como sempre.

Logo ela descobriria quão errôneas eram suas palavras.

De repente, ela se deu conta que nada mais daquilo existia, que estava na casa do melhor amigo de sua mãe, 10 anos depois, e esperava que ele estivesse morto. Tinha tanto ódio.

- Michael... – voz chorosa.

Michael parou de falar. Tracy sentiu algo lhe apertar o canto do peito. Uma sensação súbita e instantânea, se dando conta mais uma vez que estava só naquele mundo, com o perigo rondando-a, fugindo da polícia e sem saber o que fazer nos dias que se seguiriam. Os olhos querendo chorar, mas ela retendo as lágrimas. Michael foi para mais perto, hesitante, e com cuidado, lento, envolveu seus braços nela. Tracy deixou-se aconchegar naquele gesto de carinho. Há quantos anos não tinha aquilo?

Michael lhe sussurrou, contrito:

- Não queria que se chateasse... eu... eu só queria saber o que houve... – Fio de voz. – Você era tão nova, eu teria cuidado de você.

Tracy lhe levantou os olhos, inundados em lágrimas. Ela limpou-as com os dedos.

- Não faz idéia do que eu passei todo esse tempo.

- Se quiser falar sobre...

Ela se afastou de Michael, não tinha tal intimidade para ficar abraçada com ele, por tanto tempo.

- Você não entenderia.

- Posso tentar. – Insistiu ele.

- Me deixe ir embora.

Michael apertou os lábios.

- Não antes de saber onde está Diana.

Tracy bradou:

- Santo Deus, será que você não entende que isso é o que mais quero saber na vida?

Michael ergueu as sobrancelhas. Alguém bateu na porta. Ambos olharam para ela. Michael falou:

- Você fique aqui. Abrirei a porta e deixarei a chave com você. Estou confiando.

Tracy mordeu o lábio.

- Não vá embora, por Deus. Eu quero lhe ajudar.

Ela suspirou, cansada:

- Agradeço o que está tentando fazer, mas você não pode.

- Não podemos saber antes de tentar. Fique, por favor.

Tracy fechou os olhos por um momento.

Deus, quem é esse homem?

- Abra logo essa porta ou quem está batendo perderá a mão.

Era Hélène e ela lhe contou sobre Paris. Michael se afastou imediatamente e Hélène deu uma olhadela para dentro do escritório. Tinha alguém ali, disso ela soube. Correu atrás de Paris

Paige encontrou Hélène e com passos rápidos, conseguiu alcançá-la. Ela parecia afobada.

- Hélène!

Paige acenou, alguns metros distantes.

- Hélène, eu... – Ela olhou com mais cautela para a empregada. – Está se sentindo bem?

- Si, si. É um prrazer revê-la, senhorrita Paige. Más eu... hã... Parrí está sumida e prreciso encontrá-la depressa.

Hélène achou estranho Paige sorrir diante de sua declaração.

- Ora, Hélène. Sei onde está a menina.



Michael percorreu rapidamente os arredores da casa encontrando Paris rente a piscina. Seu coração se acalmou.

- Paris, querida, não deveria estar aqui! – Advertiu, sereno.

Ele a pegou no colo e a abraçou.

- Eu disse para que não me desobedecesse.

Paris entortou a boca, mexendo com os dedos nuns fios de cabelo de seu pai.

- Desculpe, mas eu só queria ver Paige. Estava com saudades.

Michael abriu os lábios.

- Mas Paige não está aqui, meu bem. Já conversamos sobre isso.

- Está sim, veja!

Paris apontou para Paige e Hélène que vinham apressadas. Michael engoliu em seco. Teve uma vontade súbita de abraçá-la e beijá-la. Só Deus poderia saber o quanto ele ainda amava aquela mulher. Era algo quase incontrolável, involuntário.

- Deixe qui eu a leve parra cama, monsieur.

Hélène agarrou Paris e se virou, não antes de lançar um olhar significativo para Paige. Era péssimo deixá-los a sós. Mas Hélène confiava em seus sentidos, nada iria acontecer.

Paige reparou na semelhança de seus brincos desaparecidos com os de Hélène, mas preferiu não fazer qualquer menção ao caso. Michael estava em sua frente, lindo, e era isso que importava agora.

Paige deu um passo à frente, teve de levantar o rosto para olhá-los nos olhos. O mesmo perfume entorpecedor.

Michael parecia sóbrio, mas seus olhos brilhavam do mesmo modo como sempre fizeram quando a via.

Ele ainda me ama.

Ela soube. E era verdade.

- Paige, eu preciso entrar... – ele estava claramente embaraçado.

- Michael! – Ela entendeu a mão. Os lábios numa linha tensa e apertada.

Michael abaixou o olhar e depois voltou para ela.

- Não, Paige. É melhor não falarmos nada. Acabou, e é isso que importa.

Como doeu dizer aquilo.



Tracy pensava rápido: E agora?

As chaves estavam ali, tilintando em sua mão.

Tracy abriu a porta e fugiu.

Quando Michael retornou ao escritório, ela não estava mais lá.

Tracy dava passadas largas enquanto deslizava seu corpo nos espaços entre as pessoas, e de repente, um susto, ela parou. Olhou com mais atenção e...

Kenny?

Não. Talvez estivesse delirando.

E então uma mulher se aproximou ainda mais dele.

Claire.

Impossível de não se reconhecer.

O que eles fazem aqui?, Tracy se perguntava. Não poderiam sonhar que ela estivesse ali.

Olhar para Kenny lhe despertava os piores sentimentos, tratou de apressar os passos à saída. Sabia que um dia iriam se encontrar novamente, para um novo acerto de contas.

Alguém a apertou pelo braço e fez com que se virasse.

- Sorrateira como uma gata.

Ela estava de frente a Michael, e soltou um sorriso débil.

- Tenho minhas qualidades.

- O assunto é sério, Tracy – sussurrou-lhe o nome. A voz firme.

Tracy suspirou, já sentindo o desgaste do que viria a falar:

- Me diga o que é preciso fazer para que você entenda. Eu já disse que não sei de nada. E mais, você era amigo de minha mãe, não meu. Portanto, me deixe em paz!

Ela puxou o braço. Michael molhou os lábios rapidamente e mordeu o inferior. Visivelmente transtornado, enfiou as mãos nos bolsos da calça.

- Certo. Quero ser seu amigo, Tracy. Eu posso te ajudar. Tenho certeza que o que dizem nos jornais não passa de um mal entendido.

Tracy fitou-o por um momento, cálida, e levou a mão ao rosto dele. Acariciou-lhe o malar com o polegar.

- Você tem algo especial. É difícil encontrar pessoas com essa inocência, com somente esse lado bom. Nunca perca isso, está bem?

Ela se virou e seguiu em frente, lançando-lhe um último olhar por cima do ombro enquanto apressava os passos, para algum lugar.

Michael se perguntou o que ela queria dizer. Será que ela realmente tentou matar Kenny?

Ele não saberia, ou pelo menos não agora.

Tracy viu-se na rua, caminhou até o final dela e virou a esquina à procura de um ponto de táxi. Tinha alguns dólares e dariam para pagar a viagem. Precisava chegar na hora certa no restaurante de Davey para que Joey não desconfiasse de nada. E foi bem nesse instante que um automóvel escuro parou em sua frente e sua janela abaixou lentamente. Um par de olhos negros surgiu dali, atormentadores.

- Entre, Tracy, sei que há muito que me falar.

Era Joey. Tracy abriu a porta do carro e se esgueirou para dentro. Havia medo em seu rosto.

77 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Ter Set 11 2012, 09:33

MirellaOliveira


Super Fã
Super Fã
Capítulo 23



A verdade tinha de ser dita.

Tracy nunca soubera quem era seu pai, e na verdade, pouco se importava com isso, mas algo mudou quando viu sua mãe discutindo com um estranho na sala.

Ela estava na cama e escutou vozes alteradas, desceu as escadas para averiguar e então ele lhe agarrou. Apertou-a contra o peito e disse:

- Minha cara, Tracy, querida. Estou de volta. Sou eu, papai.

Tracy não soube o que dizer e em vez disso, empurrou-o postando-se em seguida ao lado de Diana. Indagou com total incredulidade:

- Mãe, isso é verdade?

Tracy aniversariava 14 anos naquela manhã. Era uma manhã fresca, com finos raios de sol esmaecidos entrando pelas frestas das janelas, iluminando toda sala. A expressão de sua mãe de verdadeiro desaponto respondera tudo.

- Tracy, suba. Depois conversamos.

Ela cruzou os braços.

- Eu não vou.

Havia algo desafiante em sua voz.

- Faça o que estou mandando.

O homem de estatura média se aproximou, agachando-se um pouco para ficar em sua altura.

- Espero que sua mãe tenha falado sobre mim durante esses anos.

Tracy olhou-o mais uma vez, com o maior cuidado, procurando algum vestígio seu naquele rosto efusivo e gentil. Não encontrou nenhum. Respondeu, hesitante:

- Na verdade, não.

Ele levantou os olhos para Diana, intimidando.

- Eu devia saber.

Um suspiro cansado.

Diana visualizava a cena, impaciente, querendo agarrar Tracy e afastá-la o mais distante possível dele. Ele sorriu para Tracy e estendeu a mão.

- Sou Adam. Adam Penn.

Tracy ameaçou se aproximar, mas então Diana agarrou-a e levou para a escada. Ordenou:

- Suba agora, Tracy!

Ela oscilou entre sua mãe e seu suposto pai.

- Mas, mãe...

- Agora!

Diana estava gritando. Tracy se apressou em subir, correu até a porta de seu quarto e abriu-a e bateu, dando a sensação que tinha se trancado nele. Voltou para perto da escada, e ali ficou silenciosa e agachada.

Diana avançou em Adam:

- Vá embora.

- Não pode fazer isso, Diana.

E ele deu um passo à frente. Insinuante, tocou o queixo de Diana erguendo-lhe o rosto para fitá-la. Aproximou seus lábios dos dela, mas então Diana virou o rosto.

- Eu a amo.

Como era cínico!

Diana afastou a mão dele de si.

- Nunca me amou. Você fugiu quando soube que eu estava grávida. Entrei em desespero, Adam. E agora, quando tudo parece ficar bem, você volta como um fantasma para assombrar. Por que faz isso? Por que voltou?

Ela tinha medo de chorar e mostrar o turbilhão de sentimentos confusos e conflitantes que lhe aconteciam no exato instante.

Ele respondera:

- Estive em sua procura por 14 anos... – começara. Era mais uma mentira.

Olhos de Diana começaram a inundar. Ficou histérica:

- Mentira! Tudo o que você disser será mentira! Eu não quero ouvir. Você nunca se importou comigo ou com Tracy.

Era verdade. Diana adiantou-se em abrir a porta. Arrependeu-se por tê-lo deixado entrar e bagunçar toda a sua vida mais uma vez.

- Por qual motivo eu estaria aqui, Diana?

Havia outro motivo. E Diana tinha uma idéia de qual seria, mas não faria qualquer menção a isso.

Ele aumentou a voz:

- Pense, qual? Voltei por vocês! Quero uma chance... um voto de confiança. Estou arrependido.

Não era o que parecia.

- Um pouco tarde, não acha? – retrucou Diana.

- Por favor.

- Saia.

- Mas para onde quer que eu vá?

- Não gostaria de saber. – Diana fez o maior esforço para controlar a voz. – Magoaria seus sentimentos.

Ela bateu a porta, girou a chave duas vezes e escorregou o corpo ao chão, e então chorou. Tracy voltou para seu quarto.

Estava tudo acabado, mais uma vez.

Começou há 15 anos. Diana conhecera Adam Penn num almoço onde comemoravam o noivado de uma amiga, e ele era o melhor amigo do noivo.

De alguma forma, parecia que o destino conspirava para que eles se esbarrassem durante toda a comemoração. Chegava a ser cômico, e quando se encontraram pela sexta vez, por pouco não derramando bebida um no outro, ele parara, sorrindo e dissera:

- Sou Adam Penn.

Ele tinha um sorriso efusivo, além de ter uma beleza própria. Não era muito alto, nem muito baixo, seu peso balanceado, e fios castanhos escuros brincavam no alto de sua cabeça quando ele se movia, fazendo todos penderem para um lado, feito uma franja. Tinha uma engraçada mas antiquada maneira de chamar seus amigos:

- Meu caro, John, como anda a família?

- Não, meu caro, estive de férias na...



- E então, minha cara, como se chama?

Ele estava aguardando alguma resposta. Diana descobriu-se embaraçada.

- Desculpe. Sou Diana Gummer.

Ele pareceu surpreso.

- Oh, Deus, então é você quem irá tocar na festa de casamento de Alex?

Diana sorrira.

- Sou eu mesmo. Susan me convidou. Fiquei lisonjeada.

- Soube que é excepcional.

Ele tinha bom papo.

- Faço o que posso.

Conversaram por toda a festa, e depois, quando todos iam embora, ele adiantou-se em lhe entregar um cartão.

- Espero seu telefonema. Foi ótimo falar com você. Podemos marcar alguns encontros, o que acha?

Acontecia tudo muito rápido, mas ele era encantador, e com certeza era bom em persuasão. Não podia negar a si mesma, queria encontrá-lo mais vezes.

- Eu acho ótimo.

Encontrou-o mais vezes, e a cada, sentia conhecê-lo ainda mais. Seu nome era Adam Klin Penn, tinha 27 anos, dois anos a mais que ela, filho de uma portuguesa com um americano, sua mãe resolvera morar nos Estados Unidos, estudou em Chicago e era um gênio com números. E ela descobrira isso num Café, quando resolveram se encontrar depois do trabalho. O garçom chegara com a conta, mas antes que apresentasse Adam, ele já sabia o valor. Tirou uns dólares e entregou. Diana pareceu espantada. Ele sorrira.

- Mas você nem esperou...

- Sou bom com números.

E era mesmo.

Aniversariando dois meses em que assistiam filmes no Fairfax e jantavam no Spago, resolveram terminar a noite juntos, tomando um bom vinho na casa de Diana.

Passaram boa parte do tempo conversando, ela lhe contara sobre seu amor a música e que um dia seria uma grande pianista; ele, sobre um dia poder trabalhar em Wall Street, o centro financeiro dos Estados Unidos. Ele demonstrava ambição. Diana lhe dissera:

- Tenho certeza que um dia conseguirá.

Mal sabia ela que anos depois ele estaria trabalhando num estúdio ao lado do maior astro pop norte-americano, e contra sua vontade.

Ele se aproximara tomando-lhe a taça da mão.

Foi a primeira vez que fizeram amor. Diana tinha certeza que ele era o homem certo.

Estava errada, e descobriria isso meses depois ao anunciar que esperava uma criança.

Diana às vezes se pegava pensando o porquê que um homem tão bem sucedido como ele estaria fazendo só e terminando a se interessar por ela.

Deve ser o destino, realmente.

De início, talvez ele tivesse se interessado mesmo, mas depois, como um passe de mágica, tudo sumiu. Ela estava no apartamento dele, quando o questionava, ainda não dissera nada sobre a gravidez:

- Mas o que deu em você, Adam?

Ele queria terminar o relacionamento, estava ficando tudo sério demais, e isso o preocupava.

- Acho que nos precipitamos ao falar de casamento. Devemos adiar tudo, esperar um pouco mais.

- Não podemos adiar nada, Adam. – Ela fez um esforço, respirou fundo. – Eu estou grávida.



Era como se ele nunca tivesse estado naquela cidade, havia passado um mês e Diana não o encontrava em lugar algum. Seu apartamento se encontrava vazio quando Diana foi até lá. Ela entrou em desespero.

E para Adam, a vida estava só começando... Conseguira enfim pedir em casamento Grace, filha de um dos homens mais poderosos do estado. E estavam a caminho da lua-de-mel, na Riviera Francesa. Ele se simpatizava com Diana, era a verdadeira beleza em mulher, mas não era rica como Grace. E Grace também tinha seus atrativos. Ele se deu por satisfeito.

Para Grace, seu nome era Terry Terence, estudou economia e era incrível com números como ninguém. Sua mãe era americana assim como seu pai. Estudou em Washington na George Washington University e realmente tinha o sonho de trabalhar em Wall Street. Vinha de uma família de classe média alta, mas tinha gana por reconhecimento, e por aquilo que o pudesse fazer a alcançar isso: dinheiro.

Mais tarde, questionando sobre ele à sua amiga Susan e seu marido Alex, descobrira que ambos nem o conheciam, e pensaram que ele era seu acompanhante. Diana pareceu incrédula. Adam devia ter ido ao noivado acompanhando algum acompanhante, terminando por dizer a Diana que era o melhor amigo do noivo. Mas para quê? Talvez só por diversão, quem sabe. E ele conseguira isso. Viu que Diana estava fácil e encantada por aquele Adam Penn. Seria ótimo brincar um pouco com ela. Que mal haveria?

Ela fora enganada.

Agora com 39 anos e sua Tracy crescida, Diana sabia que Adam voltara por causa do reconhecimento que começava a experimentar, saindo em notas de jornais e revistas, e algumas vezes, ao lado de Michael Jackson. Ela sempre soube que Adam tinha certa inclinação à ambição, ao dinheiro, e ao reconhecimento. Ele falava com vigor sobre Wall Street.

Adam Penn voltara.

Poucas semanas atrás, Diana tinha a sensação que a estavam observando, e de repente, ao sair na rua, ela olhava para trás e não via nada. Era perturbador. Em casa, seu telefone tocava e quando o atendia não havia resposta alguma, somente um chiado de respiração ofegante do outro lado.

Diana estava com medo. E se fosse um maluco? Um sequestrador?

Experimentar a fama tinha seus dois lados. Ela tinha receio por Tracy. Queria mantê-la segura, e ia dizer isso a Michael uma vez:

- Michael, há uma coisa importante que tenho a lhe falar.

Ele era a pessoa certa a isso. Diana poderia deixar Tracy por um tempo na guarda de Michael, até que toda essa loucura passasse.

Ele fitou-a, sério, e então instou:

- Pelo seu rosto não me parece nada bom. Mas diga.

Michael já tinha tantos problemas pessoais, tantas coisas para se resolver e a cada dia se acumulando ainda mais. Seria abuso de sua parte pedir um favor desse a ele. Ele fora tão bom para si.

Diana trouxe a mão de Michael para as suas, e apertou-a carinhosamente. Seu rosto não conseguia ocultar tamanha preocupação, mas fez um esforço. Sorriu, débil.

- Deixe pra lá. Está tudo bem.

E Michael lhe sorriu e acariciou o rosto.

- Está certo.

E os suspeitos telefonemas não cessavam, assim como a sensação de estar sendo seguida e muito bem observada. Era como se pudessem vê-la através da roupa.



Aconteceu depois de quatro semanas. Diana despertou no meio da madrugada com a cabeça gritando de dor. Ela desceu as escadas e caminhou à cozinha. Abriu o armário de medicamentos e tirou de lá um analgésico. Pegou um copo e abriu a torneira, encheu-o de água. Bebeu e voltou ao quarto.

Dia seguinte, Tracy acordou, e como todas as manhãs, corria para o quarto de sua mãe afim de dar-lhe um beijo e um abraço de bom-dia. E abrindo a porta com um tremendo sorriso no rosto que pulou ao lado de Diana. Ela estava num sono pesado e Tracy brincava com seus cabelos enquanto falava:

- Mãe, acorda, já é de manhã e você tem ensaio daqui a duas horas.

Diana não se movia.

- Mãe...

Nada.

Tracy começou a se preocupar. Sacudiu-a. O corpo estava mole, quase morto.

- Mãe!

Ela berrou. Deitou a cabeça no peito de Diana e ouviu os batimentos. Tracy correu para o telefone e chamou a emergência. Estava aos prantos quando disse:

- Minha... – uma inspiração – Minha mãe não acorda, ela... – desandou a chorar – venham logo para cá!

Diana estava cercada por luzes brilhantes. Mas não do tipo que traz tranquilidade. E sim que faz os olhos arderem, penetrando nos cantos mais obscuros de sua memória, deixando-a sem nenhum lugar para se esconder.

Ela escutou vozes:

- Ela teve um desmaio, mas seu estado não é nada bom. Está com...

- Precisamos fazer mais exames.

Diana caíra no sono mais uma vez.

Fazia tempo que Diana vinha apresentando falta de apetite e muito cansaço, mas ela culpava os intensos ensaios por isso. Falavam-lhe:

- Está exausta, Diana. Precisa de uma boa noite de sono e de umas férias.

Ela dizia:

- Agradeço por se preocupar, mas me sinto ótima. E não posso deixar os ensaios, estou cheia de apresentações. Já disse que vou me apresentar em Las Vegas?

Mas Diana também vinha ficando muito sonolenta, às vezes ela tombava por onde quer que andasse, e tinha tonturas ao se pôr de pé. Então ela pensava: Preciso comer algo.

E ela comia, e até apresentava melhoras de início, mas depois vinha tudo novamente.

Preciso procurar um médico.

Mas nunca procurava. Sempre tinha um pretexto:

- Ensaio.

- Apresentação.

- Prometi sair com Tracy hoje à tarde.

E os dias iam passando.

Diana saíra do hospital dia seguinte, mas com os médicos implorando para que continuasse em observação. E foi então que ela soube:

- Tem Leucemia, e seu estado é grave.

Foi um choque. Ela tinha de estar bem por ela mesma e por Tracy. Deus, o que aconteceria com sua filha se ela morresse?

Os médicos continuaram a falar:

- Podemos tentar fazer algo, mas...

Ela sabia que sua sentença estava dada. Mas não diria a ninguém, nem mesmo a Tracy. Tinha de dar um jeito sozinha. E foi nesse tempo em que seu fantasma chamado Adam Penn retornara.

Três dias mais tarde, voltando do ensaio, Diana foi parada na rua. Era Adam.

- Preciso falar com você.

- Não temos nada a falar. Já foi em minha casa, viu Tracy. E isso foi o bastante. Dê-se por satisfeito.

- Sei que é amiga de Michael Jackson.

Foi bem aí que a situação atingiu outros planos. Diana se virou:

- E o que tem?

- Quero que me ajude a me aproximar dele.

Diana soltou uma risada.

- Só pode estar brincando!

Mas ele não estava. Adam estava sério.

- Estou me mudando para cá. Infelizmente não me aceitaram em Wall Street.

Ele parecia desapontado.

- Era o sonho da minha de vida estar entre os grandes e... – ele meneou a cabeça. – Deixe pra lá. Sabe o que tem de fazer, não sabe, Diana?

Na verdade, ela sabia, mas nunca poria um homem feito Adam próximo de Michael Jackson, seu melhor amigo.

- Me ajude, ou nunca mais verá Tracy.

Era uma ameaça.

- Posso dizer à polícia que estou sendo ameaçada, e vamos ver de que lado a justiça irá ficar.

Ela tornou a se virar, seguindo em frente. Ouviu a voz de Adam atrás:

- Tenho contatos, muitos deles. E acredite, não importa o que eu fizer, a justiça sempre olhará para mim como um homem santo.

Seu sogro era o homem mais poderoso do estado, e isso lhe trazia vantagens.

A vida de Tracy estava em jogo, mas não queria prejudicar quem mais lhe ajudou. O que fazer?

Ligou para Lise, sua meia-irmã. Ela possuía um comércio em Nova York e poderia cuidar de Tracy. Mas ainda assim, ela preferia que a guarda ficasse com Michael, mas tendo Adam no caminho, poderia ser perigoso. A sua única solução era mandá-la para Nova York.

Depois, ela foi até Tracy:

- Tracy, querida, preciso que me ouça.

Ela se sentou ao lado de Tracy, na cama.

- Sim, mãe. Diga.

E Diana tirou uma passagem de avião à Nova York do bolso. Entregou-o.

- Para você.

Um imenso sorriso floresceu nos lábios da pequena Tracy. Mas então, ela olhou para expressão de sua mãe.

- O que houve? Eu adorei o presente! Obrigada.

- Não poderei ir com você, querida.

O sorriso de Tracy esvaiu.

- O que disse?

- Não vou poder ir, Tracy.

- Mas por quê?

Diana respirou fundo.

- Não importa o porquê, mas só faça o que eu pedir, está bem?

Tracy sacudiu a cabeça, positivamente.

- É o seguinte...



Horas mais tarde, Diana conseguiu uma hora com Michael. Ele estava atolado de trabalho, mas recebeu-a com carinho em sua casa. Abraçou-a.

- Diana, é muito bom vê-la!

Ela esboçou um sorriso e se acomodou na cadeira frente à escrivaninha dele. Michael sentou-se logo após.

- Michael...

Ele lhe levantou os olhos, terno.

- Sim?

Seria a última vez que ela veria aquela face serena e gentil. Que ouviria aquela voz suave acariciar seus ouvidos. Que sentiria a textura daquelas mãos macias em contato com as suas.

De alguma forma, ela sentia isso. Era uma despedida.

- Nada. Eu só queria te ver.

Ela ia dizer “pela última vez”, mas calou-se antes disso.

Michael tencionou os lábios e então apertou com mais vigor as mãos delicadas de Diana.

- Não gosto disso. Me parece tão triste.

Diana estava assim.

- Não ligue para mim, continue a trabalhar. Só me deixe ficar um pouco aqui.

Ele franziu o cenho, confuso.

- Não quer conversar?

Ela fitou-o nos olhos. Naqueles olhos.

- Não.

- Está bem.

E Michael voltou sua atenção à tela do computador e aos incontáveis papéis ao seu lado.

Diana o observava. Olhá-lo de alguma maneira acalmava seu coração. Ele era dotado de algo bom, algo que lhe trazia paz.

Observou-o ler os documentos, atento, seus olhos se movendo de acordo com as linhas, e de repente ele parava por um segundo, olhava para Diana, emudecida, e então deslizava seus dedos longos para os dela, carinhoso. Sua mão era quente, e dava uma sensação gostosa ao senti-las em contato com as suas, frias.

Diana apertava os lábios e lhe erguia os olhos, tristes.

Michael sentia seu coração moer. Insistira mais uma vez:

- Fale para mim, por favor.

Mas para sua surpresa, Diana se levantou e rodeou a mesa, indo até ele. Agachou-se rente as suas pernas e agarrou-lhe as mãos. Deitou sua cabeça nelas, sobre pernas dele. Queria chorar um pouquinho que fosse, diminuir a dor, mas não o fez. Ele fez menção de mover as mãos para erguê-la, mas Diana o impediu. Queria senti-lo assim, por um momento.

- Diana... – Chamava ele num murmúrio. – Levante-se, vamos.

E ele deslizou suas mãos ao rosto dela, erguendo-o. Ficaram próximos por um instante. Os olhos vermelhos de Diana, os lábios entreabertos de Michael, a respiração quente. O ambiente silencioso. Nenhum ruído, somente o crepitar das roupas e o mover do ponteiro no relógio.

- Diana...

Mas ela o calou. Fechou os olhos e lentamente foi de encontro a ele. Michael não se moveu por um instante, surpreso, mas ao sentir a ternura dos lábios vermelhos dela, ele abriu mais os seus, permitindo que ela ultrapasse, permitindo que um carinho mais íntimo acontecesse.

Os lábios se movendo devagar, ainda hesitantes. As mãos por baixo dos cabelos, quentes. O peito se enchendo e esvaziando com rapidez. As pálpebras trêmulas, mesmo fechadas.

Um dos dois tentou se afastar, mas se descobriram ansiados por mais. E um mover mais sôfrego aconteceu, forte, faminto. Michael podia sentir os dedos de Diana rente ao seu joelho, andarem, subirem um pouco mais, apertando-o, enquanto os outros se emaranhavam com vigor por seus cabelos.

Diana tinha as mãos dele em seu rosto, que após o beijo, levou-a a repousar em seu peito.

Silêncio.

- Obrigada, Michael. Obrigada por tudo.

Ela podia ouvir as batidas do coração dele.

Michael a olhou.

- Por que está assim?

E então ela se levantou. Beijou-o na testa e se afastou. Parou na porta.

- Cuide-se. Eu o amo muito, meu amigo. Muito mesmo. E me desculpe pelo que vou fazer.

E ela se foi.

Ele correu para alcançá-la depois de um tempo, mas era tarde. Foi até a janela e viu o carro de Diana sumir portões afora.

Seria a última vez.



A campanhia tocou.

- Boa-noite, Tracy.

Diana desceu e foi atender. Quando viu quem era, empurrou o peso de seu corpo para tornar a fechá-la, mas foi inútil. Adam entrou em sua casa. Escancarou a porta e Diana correu. Voou até o telefone da cozinha e discou um número. Adam estava em sua frente, sem qualquer expressão significativa no rosto. Estava muito convencido de si.

Ela ouviu:

- Polícia de Los Angeles...

Mas então soube, de nada disso adiantaria. Deixou o fone escorregar de sua mão. Respirou fundo.

- Não posso fazer o que me pede, Adam.

Ele sorriu, desencostando o corpo da parede e caminhando até ela.

- Claro que pode, meu bem.

Diana franziu o rosto.

- Não me chame de “meu bem”. Não sou nada sua.

- Me apresente para Michael e ficará tudo como está.

Claro que não ficaria, o pouco que ela sabia sobre Adam era suficiente.

- Não vou fazer isso.

- Diana... – a voz grave.

E então ele a jogou contra a parede. Aquilo doeu, ela sentiu toda a extensão de suas costas gritarem. Tracy se levantou, assustada pelo barulho, desceu as escadas.

- Vá embora, por favor, Adam.

Sua voz estava chorosa. Diana sentia-se fraca.

- Mãe?!

Tracy olhou para sua mãe agachada ao chão, e seu pai, ameaçador, próximo a ela.

- Mas o que está havendo...?

Diana se levantou e com resto de forças empurrou Adam. Gritou:

- Fuja, Tracy! Fuja!

- Eu não...

- Agora! – Berrou.

Tracy correu para seu quarto, sabia o que fazer. Tinha de pegar sua mochila, a passagem. Lembrou-se de alguns dólares que vinha guardando. Estava tudo na gaveta do criado-mudo. Arrancou a gaveta e jogou tudo na bolsa. Uma fotografia caiu, Tracy a pegou e olhou. Enfiou junto com os dólares.

Chutes vinham da porta, Tracy retraiu. Ela sabia que a madeira não aguentaria muito tempo. Tinha de dar um jeito de sair. Pensava rápido, varreu o quarto com os olhos e viu a janela.

Deus, era muito alto!

Viver ou morrer. Escolheu viver.

Levantou a vidraça e deslizou seu corpo. Foi horrível sentir seu pé pender no ar. Passou a cabeça e estudou o lugar. Tinha outra janela abaixo da sua, provavelmente a da sala, mas possuíam uma distância considerável.

Droga, isso ridículo! É suicídio!

Ela escorregou todo o corpo para fora, segurando-se na borda do parapeito, tentando adquirir coragem para saltar. Respirava rápido. O ar gelado entrava e saia de seus pulmões com pressa.

Tracy olhou para baixo mais uma vez, vendo suas pernas moverem-se no nada. Tremeu por inteira. E foi então que a porta foi escancarada. Pedaços de madeira voaram por todo seu quarto.

Ela tinha de pular. Tinha de fazer.

Lhe agarraram as mãos. Tracy gritou.

- Não vai sair daqui, garota!

Tracy começou a sacudir seu corpo. Suas mãos escorregavam. Iria saltar.

- Me largue! Me solte!

E estava só pelos dedos, suados. Não demorou, Tracy despencou até o jardim. Gritou quando sentiu seu ombro deslocar. Suas pernas gemiam, mas não tinha tempo para isso. Mole e hesitante, ela se ergueu, precisava correr. Logo o monstro estaria atrás dela. Pegou sua mochila, parecia que pesava quilos agora. Jogou-a nas costas e tentou andar. Os passos lentos, doloridos.

Droga! Droga! Droga!

Havia esfoliações nos braços, e mais um ligeiro corte, que sangrava. Tracy comprimiu o local com a mão. Olhou para trás. Sua mãe estava ali, com aquele monstro. Queria voltar e ajudá-la, mas tinha ordens expressas para não fazer isso. Prometeu isso à Diana.

Ele apareceu, o rosto efusivo e gentil transformado pela raiva. Tracy começou a correr, errante, tropeçando.

- Não! Não! Não! – Tracy invocava.

Ela voava, e tinha sorte da cidade ser a poucos minutos dali. Mas de onde estava, por mais que gritasse ninguém a escutaria. Precisava correr, misturar-se as pessoas. De repente, ela olhou para trás, ele estava a poucos centímetros, e agarrou-a pela bolsa. Tracy berrou.

- Sai! Sai! Me deixe!

Ela caiu novamente no chão, batendo o lado esquerdo do rosto com força no asfalto. Doeu.

- Eu disse que você não iria a lugar algum, garota.

Tracy deslizou o corpo, mas ele a apertou pelo pé. Virou-se, contorcendo-se e o chutou. Aproveitando o tempo em que ele levou as mãos ao rosto, correu. De longe, pôde ver o sangue escorrer de seu nariz, e ouviu xingá-la dos piores nomes.

Correu o mais rápido que pôde.

Chegando à cidade, tratou de se esconder pelas pessoas, misturando-se. Atenta a todos os lados. Agora estava só, e com medo.

Pegou a passagem e parou num ponto de ônibus. Tinha sorte de conhecer toda a cidade. Foi a caminho do aeroporto. E depois, não soube como a deixaram entrar, estava suja e ferida, mas sentou-se no fundo, oculta a todos os olhos. O avião levantou vôo.

Em Nova York, tinha de encontrar sua tia. Não a conhecia. E sua primeira noite na cidade foi a pior possível, vagou pelas ruas.

Nunca pensou que a cidade do mundo fosse daquele jeito. Havia pessoas sujas, vagando. Mulheres se oferecendo. Tinha uma visão diferente da famosa Nova York: glamour, poder, riqueza, felicidade. Pelo jeito, tudo há seus dois lados.

Tracy nunca imaginaria que um dia poderia passar por isso. Descansou o corpo pesado e dolorido num banco, estava numa praça. Sentia-se esgotada. O dia estava amanhecendo, seria uma manhã bonita, e pegou a fotografia. E ali estava, ela e sua mãe. Como estaria Diana?

Tracy sentia o seu estômago protestar por algo, ela andou pela cidade desconhecida e encontrou um bar. Pediu qualquer coisa. Todos a olhavam, curiosos. Era uma sensação desconfortável, mas tentou se desvencilhar disso. Mergulhou o Donuts no café e levou a boca. Tinha muita fome. Alguém se aproximou.

- Precisa de ajuda?

Era um homem, ele tinha uma expressão gentil. Ele olhou para o braço de Tracy, a manga da camisa pintada em vermelho. Lembrou-se da dor que sentia.

- Não.

Na verdade, ela precisava sim. Mas passou a temer expressões gentis de homens bons.

Deixou uns trocados na mesa e saiu. Tinha um endereço na mente, e foi para lá.

Ela se chamava Lise e era muito bonita, e possuía um comércio- um Clube de Strip. Tracy não soube o que dizer. Aquela seria sua nova realidade, tinha de se conformar.



Adam deixara Diana muito ferida e cansada com a luta corporal, e ela já estava fraca devido à doença. Não tinha muito que lhe fazer, e ela sabia disso. Foi difícil, mas ela moveu seu corpo até uma cômoda. Tirou de lá um papel e uma caneta, e mais um broche. Um pequeno broche que Diana colocava em Tracy quando bebê.

Deixou-se cair ali próximo, e começou a escrever. Não tinha forças, as letras saiam desalinhadas, ilegíveis, mas se Tracy um dia a lesse, entenderia. Depois, dobrou em quatro partes e enfiou debaixo de uma tábua de madeira solta, na sala. Pegou o broche. A única lembrança de sua Tracy. Seu fim estava próximo de qualquer maneira, por que fazê-lo demorar ainda mais?

Tirou o pino e aproximou a agulha dos pulsos. Queria se matar, acabar com aquela dor de uma vez. Não queria que Michael ou Tracy a visse definhar, essa seria a saída mais fácil. Mas então, num momento, ela se levantou, subiu os lances de escada vagarosamente, foi até seu quarto e pegou uma mala debaixo da cama. Enfiou lá algumas roupas e documentos, somente o necessário. Desceu de volta a sala, parou rente a porta e respirou fundo. Olhou para tudo e foi como se as lembranças passassem como um filme em sua mente. Ela fora feliz ali, por um momento.

E me desculpe pelo que vou fazer.

Ela dissera tudo a Terry, e seu peito doía por isso. Esperava que um dia Michael a pudesse perdoar.

Virou-se e saiu pela porta.

Depois, sumiu.

Michael nunca descobriria nada. Quando a fosse procurar, a casa estaria limpa, e a polícia de nada saberia.

E Michael entraria numa busca incansável, e sem resultados.

Terry conseguiu um emprego no estúdio, graças a algumas informações que conseguira arrancar de Diana, e anos mais tarde viria a conhecer e ser o melhor amigo de Michael Jackson.

Caso encerrado.

78 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Ter Set 11 2012, 10:05

Miloca


Fã Veterano
Fã Veterano
OMG! affraid quantos capítulos grandes e maravilhosos para eu ler! Amei, amei, amei! Assim que chegar em casa à noite eu leio flor.
E ó, pode se achar, e muito, pq sua fic é sim complexa no começo, mas é maravilhosamente incrível! Pra entrar pro hall da fama de Neverland. Fazer história. Porque é realmente excelente (e estou sendo muito sincera falando isso) Very Happy Very Happy Very Happy

Beijacksons I love you e até logo mais

79 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Ter Set 11 2012, 12:41

Isabela Nascimento

avatar
Super Fã
Super Fã
fanfic maravilhosa continua beijos

80 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Qua Set 12 2012, 10:48

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Obrigada pelo carinho, meninas! Qualquer dúvida em relação a fic, Miloca, pode me perguntar!

E agora, boa leitura!

Beijão!

81 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Qua Set 12 2012, 10:49

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 24



Paige mal podia abrir os olhos de tão inchados, depois de passar uma madrugada aos prantos.

Acabou, e é isso que importa.

A frase não lhe saía da mente desde o jantar, onde se encontrara com Michael.

Paige de alguma forma esperava tal reação. Tinha consciência que o magoou e o deixou sem explicações razoáveis ao ir embora. Explicações quais se ele soubesse poderia passar a odiá-la pelo resto da vida. E receava que isso acontecesse.

Mas, aliás, o que mais ela poderia querer? Michael estava livre, com toda uma vida para seguir e como bem entendesse; Paige estava comprometida com Davey Preston e se veria casada em poucos meses. Precisava aceitar, se conformar com seu destino ou nunca teria paz. Era assim que tinha de ser. Mas não conseguia e não queria. Necessitava dele, de reconquistá-lo, mas com Terry no caminho não daria certo. Ele poderia contar tudo e então sim, não haveria mais o que fazer.

Tinha duas opções: Ou Terry saía do caminho ou seria ela a contar a verdade.

Preferiu nenhuma das opções.

E Paige se lamentava com Constance sobre o jantar, e sua irmã ouvia, compreensiva, terna.

Constance teria de falar com Michael Jackson mais uma vez.



Depois da ligação anônima ao departamento de investigação de Manhattan, Steven e Jill foram para Los Angeles à procura de mais informações sobre Tracy Gummer. Não informaram a polícia local, queriam ter a certeza antes. E estavam num táxi quando Steven pediu para estacionar e olhou para um endereço num papel.

- É aqui. É esse o lugar onde disseram que estariam para nos encontrar.

Pararam frente a um bar bem movimentado.

- Certo. Vou na frente.

Jill abriu a porta e saiu enquanto Steven pagava o motorista.

Segundos depois estavam eles frente ao local.

- Que horas disseram que era para estarmos aqui?

Steven consultou o relógio.

- Agora. Chegamos na hora certa. Vamos entrar.



Um dia antes, Jill estava estudando uns documentos quando Steven correu até sua mesa, afobado.

- Jill, precisamos pegar o primeiro vôo à Los Angeles.

Ela pensou não ter escutado direito.

- Mas o quê?

Ele arrancou os papéis das mãos dela e jogou na mesa.

- Há suspeitas que Tracy Gummer estar lá. Recebi há poucos minutos uma ligação. Até que não foi de tão mal a sua idéia de dar informações aos jornais.

Jill se levantou, circundou a mesa, atordoada.

- Como pode ter certeza que o que lhe disseram é certo? Não, Steven, não podemos simplesmente ir.

Ele estava excitado.

- É nossa única chance, Jill. Está comigo nisso, não está?

Ela não queria estar mais. De alguma forma, trabalhar com Steven estava bagunçando seu íntimo, e isso não era nada bom... ou era? Mas o sorriso esperançoso que ele lhe revelava naquele momento era irresistível. Jill desanuviou a face.

- Está bem, estou sim com você.

Jill mal pôde acreditar que Steven deixara sua família e partira numa viagem cheia de incertezas rumo à Los Angeles junto a ela.

Eles entraram e se acomodaram numa mesa discreta, ao fundo. Permaneceram em silêncio por uns minutos, averiguando o movimento, e às vezes seus olhares se encontravam num relance. Steven consultava seu relógio e então olhava para os lados, meio impaciente. Fez menção de se levantar e então desistiu. Pigarreou e voltou-se a Jill, a voz suave:

- Agradeço por não ter desistido e ter vindo comigo.

Jill esboçou um sorriso de canto, mirando-o num dado momento.

- Assumi um compromisso e não é nada mais que minha obrigação.

De repente e hesitante, Steven levou sua mão as dela sobre a mesa. E aquilo a pegou de surpresa, terminando a fixar seus olhos nos dele.

Ele tomou a voz, novamente:

- Eu lhe devo desculpas por todos esses anos, sei que não fui nada gentil.

Jill respondeu, calmamente, trazendo sua mão de volta ao colo, deixando a dele só.

- Não é hora para isso, Steven.

- Só queria que soubesse...

- Detetive Steven Hunter e Detetive Jill Cássin, estou certa?

Ambos levantaram os rostos para a figura magra postada rente a eles.

Jill respondeu:

- Está sim. E a senhora é...?

Ela removeu a bolsa do ombro e colocou sobre a mesa, afastou uma cadeira e sentou-se, sorrindo.

- Sabia que viriam. Reconheci-os pelas fotos no jornal. Sou Madame Norman, e temos muito que conversar.

Duas horas depois, sabiam mais que meses antes. Sabiam que Tracy se instalara em Los Angeles portando a falsa identidade de Nancy Gray. Sabiam que estava morena e com cabelos curtos. E talvez, cega – somando com a informação que o agente Brian adquirira pelo Hospital Bellavue, tempos atrás. E o melhor, que ela trabalhava somente a duas quadras dali.

Jill e Steven seguiram para uma polícia local. Precisariam de reforços para essa noite.



- Por que mentiu? Por que disse que não enxergava?

Joey parecia desapontado.

- Eu não merecia isso, Tracy. Não mesmo.

Ela suspirou.

- Sei disso e lamento. Mas já expliquei, eu precisava ter a certeza de que se eu o conseguisse enganar, estaria apta para com os outros também. Desculpe, Joey, não tive escolha.

- E o que fazia naquela casa?

- É uma longa história.

- Pensei que fossemos parceiros e que confiasse em mim.

- Por Deus, Joey, somos parceiros e confio em você, sabe disso.

Ele a fitou por um instante.

- Não sei de mais nada.

Sua voz soou firme. E depois de um momento, ele falou:

- A polícia de Los Angeles está na minha procura. E provavelmente sabem que sou o mesmo procurado pela de Nova York.

Tracy ergueu as sobrancelhas e voltou-se a ele.

- Como?

Havia um ar de total incredulidade em sua expressão e voz.

- O que ouviu – continuou ele, calmo. – Estão no meu encalço por surrupiar alguns carros.

Tracy levou as mãos à cabeça, fechando os olhos em seguida.

- E você me diz isso com toda essa serenidade? Eu devia ter imaginado que isso poderia estar acontecendo, você andava muito suspeito. Deveria ter me dito antes, Joey.

Ela se empertigou no banco, e virou-se alterada para Joey.

- Aliás, nem deveria ter feito isso!

- Era melhor que sermos expulsos do hotel e morrermos de fome. Foi o que pagou tudo, Tracy.

- Sabia que eu estava trabalhando no restaurante. – Retrucou, áspera.

- Mas demoraria um mês para receber. A conta no hotel é diária, meu bem.

Tracy bateu no porta-luvas do carro tentando aliviar a tensão.

- Que droga, Joey!

Ele riu.

- Não se preocupe, vamos partir essa noite para outra cidade.

E foi então que ela se virou, ameaçadora.

- Está enganado. Você vai e eu vou ficar.

Ele pisou no freio com força, fazendo o corpo de Tracy saltar e bater de volta ao banco. Ela esbravejou:

- Ficou maluco?

- Não pode fazer isso comigo, Tracy. Eu fiz muito por você.

- E eu agradeço, Joey. Mas não vou. Não posso viver assim. Não mais.

Joey enrugou a testa.

- Mas o que está querendo dizer?

- Que se for para me pegarem, será aqui, em Los Angeles.

Houve uma pausa.

- Continuarei com o meu disfarce e me esconderei até quando puder, mas não sairei da cidade.

Joey socou o volante, irritado.

- Não posso acreditar que está entregando os pontos depois de tudo.

- Não estou entregando os pontos. Vou continuar a manter-me oculta, como agora.

- Mas então...?

- Essa cidade foi o último lugar onde vi minha mãe, e é onde quero estar. Está decidido, Joey.

E olhou para fora. Se encontrava a poucos metros do restaurante de Davey. Abriu a porta e antes de sair, virou-se a Joey.

- Acaba aqui, então.

Ele lhe ergueu os olhos.

- É, parece que sim – áspero.

- Boa sorte – voz suave.

Ele assentiu.

- O mesmo para você.

Observou-a sair e caminhar, até sumir esquina a frente.

Tracy haveria de pagar por isso. E pagaria caro, muito caro.

Davey levou Paige e sua família para apreciarem seu restaurante naquela noite. Seria bom para seu futuro casamento conquistar ainda mais a simpatia deles, e também porque não podia negar, era uma sensação sublime estar próximo de Paige. A sua inocência fazia com que tivesse vontade de envolvê-la e protegê-la do mundo. E poderia ser ainda mais encantador se Michael Jackson não estivesse presente e sua futura esposa lançasse olhares furtivos a ele. Quem os visse poderia imaginar que já se conheciam, e Davey se sentia incomodado com isso.

E para Paige, de alguma coisa serviu a presença de Michael, teve a certeza que ele estava ali por alguma mulher. Ele parecia tenso e vasculhava o salão com os olhos. Connie tinha razão.

Tracy havia tomado rumo para o hotel. Depois de seu rompimento com Joey, e saber que ele tentaria uma fuga essa noite, não tinha mente para encarar apresentações. Ligaria para Davey depois, desculpando-se.

Joey teria de passar pelo pedágio sem levantar suspeitas, e ele era bom nisso, mas naquela altura da situação, Tracy não poderia ter tanta certeza. A polícia tinha a imagem dele arquivada.

Jill e Steven chegaram juntos a Norman no restaurante e começaram à procura de Tracy enquanto aguardavam o reforço policial para a ação.

Mas ele nunca chegaria.

Os oficiais foram enviados com urgência para a rodovia de acesso a Bakersfield - onde Joey tinha em mente atravessar para ter acesso a San Francisco pela manhã-, quando comunicados de um veículo suspeito visando cruzar a passagem. Houve perseguição, mas o final feliz sorriu para a justiça.

Joey Strandy foi capturado.

82 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Qua Set 12 2012, 10:50

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 25

A reunião estava encerrada, e Michael se levantou.

- É isso, e não há mais conversa.

Claire sentiu-se subitamente impotente, como se todo o seu dinheiro e nome de nada valessem diante de Michael Jackson.

E realmente não valiam.

- Mas... – foi quase um sussurro. Ela não pôde terminar.

Terry protestou, também se erguendo da mesa na sala de reuniões do estúdio.

- Não pode fazer isso, Michael!

- Sr. Jackson – começou Kenny, aflito -, por favor, nos ouça.

Mas estava decidido.

- Se me dão licença, preciso ir para casa.

E foi tudo.

Claire havia dito: Eu terei uma parceria com Michael Jackson e você vai conseguir isso pra mim. Trate de fazer valer, Kenny.

Retornaram para o hotel, e Kenny se desfazia da gravata enquanto Claire se esparramava na cama.

- Quero que fale com Michael.

Kenny olhou-a de soslaio, atordoado.

- Mais uma vez? Você escutou o que ele disse.

- Não me importo com o que ele diz ou pensa.

- Então temos um problema. É o que ele diz ou pensa que importa. É de Michael Jackson que estamos falando.

Claire bufou, deitando a cabeça num travesseiro.

- É você quem pretende se associar a ele, e não ao contrário.

Houve uma pausa.

- Esqueça essa idéia, Claire.

E foi de encontro a ela. Os fios dourados brincando sobre a testa. Uma mordiscada de lábio sensual. A voz doce:

- Vamos voltar para Nova York, sim?

Começou a beijar-lhe o pescoço, mas Claire o empurrou.

- Mas é claro que não!

Ela se pôs sentada.

- Vou ter essa parceria e você conseguirá para mim, não é, Kenny?

Não se tratava de um pedido, era uma ordem. E Kenny sabia que tinha de conseguir. Seu casamento com Claire estava sobre tensão e qualquer fagulha poderia fazê-lo ir pelos ares.

E então estarei perdido.

Levantou-se e ajeitou a gravata novamente. Ligou para a recepção e pediu um táxi. Saiu.

Teria de convencer Michael Jackson.



- Monsiuer, estão em su aguarrdo na sala.

- Tem certeza?

Michael estava em seu escritório, revisando uns papéis. Ele baixou os óculos de leitura e ergueu os olhos.

- Não me lembro de esperar ninguém.

Hélène pensou, depois disse:

- Querr qui eu diga qui está ocupado?

- Não. Se já disse que estou em casa é melhor eu ver o que se trata. Mande entrar, por favor.

- Un momento.

E então a figura atravessou a porta. Michael removeu os óculos e deixou sobre a escrivaninha.

- Kenny Nolan.

Sua voz soou cansada.

- Se for o que penso, peço para que se retire. Foi inútil seu trabalho de vir até mim.

Mas Kenny afastou a cadeira frente a ele e se sentou.

- De homem para homem, Michael. – Kenny fez com que saísse firme.

Michael se acomodou, e cruzou os dedos sobre a mesa, sóbrio.

- Até esta manhã eu era senhor, e agora sou Michael? Não sabia que tínhamos tanta intimidade.

Havia desdenho na sua frase.

- Mas vamos, diga de uma vez.

Kenny engoliu uma bola de saliva que formava em sua boca.

- Preciso que me ajude. Preciso dessa parceria.

Michael derramou suas costas no encosto da cadeira, revirando os olhos.

- Pelo amor de Deus, estou farto desse assunto. Faça um favor a nós dois, vá embora e não volte. Esse assunto já está resolvido.

- Mas não para mim.

- Não vou vincular-me a sua esposa, Sr. Nolan. Seria como... – ele buscou as palavras – seria como me suicidar frente à mídia. E não estou a fim de fazer isso. Está enganado se pensa que é fácil manter uma imagem positiva nos jornais. Eles são os que nos exaltam, mas também os que nos rebaixam. E eu já vivi os dois lados. Me sinto bem como estou agora.

- Pago uma boa quantia se fizer isso.

O astro esboçou um sorriso.

- Interessante isso, não?

Michael deixou os papéis na escrivaninha e então inclinou seu corpo para mais perto de Kenny.

- Não. E eu não estou à venda. Agora se retire.

Kenny tinha de apelar para outro lado.

- Por favor, essa é a única maneira de salvar meu casamento!

Michael franziu o cenho.

- Não sei o que se passa em seu relacionamento, mas acredite, não será dessa maneira que seus problemas vão se resolver. Não posso te ajudar, Kenny. Desculpe.

Kenny fixou seus olhos esmeralda nele, por um momento, cheio de raiva. Michael não daria o braço a torcer, e Kenny estaria perdido. Ele se retirou da presença de Michael e seguiu de volta ao hotel. Claire o mataria ao saber de seu fracasso.

Mas foi pior, Claire se irritou, pediu divórcio.

E isso era culpa de Michael Jackson! Kenny tinha de fazer algo... E uma luz invadiu sua mente no exato instante em que Claire o xingava e se preparava para arremessar um de seus saltos agulha. Kenny se abaixou e foi até ela, furioso.

- Não é você quem quer divórcio, Claire. Sou eu!

Estava farto de sua voz, de seu rosto, e de qualquer outra coisa que o fizesse ter a infeliz lembrança de Claire. Ela o enojava. Kenny abriu o armário e despejou suas roupas numa mala. Virou-se e foi embora.

Claire ficou pasma, imóvel por um momento, vendo-o sair, sem voz, como se um oco tivesse formado dentro dela.

Isso não podia ter acontecido, ninguém nunca ousou dizer não a Claire Merrivalle, com exceção de Michael, e agora de Kenny. Ela sentiu mais raiva, sentiu-a contaminar por todo seu corpo, porque ele a traíra com muitas outras, porque ele a traíra com Tracy Gummer e porque ela não havia feito seu trabalho direito. No fundo, Claire queria que ela tivesse feito. Kenny devia estar morto há muito tempo. Era um imbecil ambicioso, sugador. Mas ela haveria de mudar essa realidade de uma vez. Antes, tinha um servicinho a realizar contra Terry. Pegou seu telefone e esperou que o atendessem.

83 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Qua Set 12 2012, 10:50

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 26

Tracy estava correndo rápido, muito rápido. Passando entre as pessoas como um leão atrás de seu alimento, com a simples diferença dela não ser o caçador, mas a caça. O perigo fungava em seu pescoço e ela podia se sentir seu fedor. Tinha medo.

Joey foi pego e ela seria a próxima.

Jill e Steven souberam que Joey Strandy fora capturado pela polícia local, e dia seguinte foram até a delegacia para interrogá-lo.

- Certo – disse um agente depois que os detetives exibiram seus distintivos. – Ele os está esperando. E sejam rápidos.

Seria Jill quem faria as perguntas para o ser anorexo de cabelos negros oleosos, sentado com algemas nos punhos. Ele levantou os olhos quando ela se acomodou a sua frente. Havia um certo brilho nos olhos da detetive, uma certa esperança em seu rosto, porque Joey Strandy estava ali para lhe proporcionar isso.

- Meses em sua procura... – ela fez uma pausa, reflexiva. – Meses!

Era quase inacreditável ver-se frente a ele e a um passo de Tracy Gummer. Precisaria dela para provar sua teoria, para mostrar que Kenny Nolan não é quem aparenta ser. Não se tratava mais de um desejo, mas de uma necessidade. Tinha de dar um fim aquilo tudo.

- Sabe por que está aqui, não sabe? Acho que não preciso explicar.

E Joey ergueu-lhe o rosto, fazendo seus olhos se encontrarem numa linha reta.

- Não há necessidade para rodeios, detetive. Sei bem o que você quer.

Jill ergueu sua sobrancelha castanha e longa, bem delineada, surpresa. Steven se encontrava em pé atrás dela e se aproximou da mesa que separavam Jill e Joey. Apoiou o peso de seu corpo nas mãos sobre mesa e virou sua cabeça para o acusado.

- Sabe é?

A pergunta era retórica.

- Querem chegar a Tracy; saber onde ela está.

Ele era prático, ágil, rápido.

- E nos diria isso? – Indagara Jill.

Joey moveu os olhos de Steven para a detetive.

- Claro.

Tracy pagaria caro, muito caro.

Mas estava tudo fácil demais e Steven desconfiou:

- Por quê?

Ela me usou, me enganou, e é uma vadia. Merece pagar por isso. Apodrecer na cadeia nos próximos anos assim como eu.

Mas o motivo era de menos para eles.

- Vão querer saber ou não?



E na mesma tarde três viaturas cercaram o hotel onde Tracy se instalara. Ela estava deitada quando escutou as sirenes e então se alertou. Um súbito pavor se alastrou como fogo em palha por seu corpo. Foi até a janela, e pela fresta da cortina pôde ter a certeza: uma série de policiais saltavam dos carros, armados.

Armados!

Ela absorveu a informação, e por um instante pôde ter a sensação das balas perfurarem sua pele e seu corpo derrapar sobre o asfalto, sangrando.

Entrou em pânico, tinha de sair dali, e depressa. Estavam subindo ao seu encontro, mas não conseguia pensar em nada. Absolutamente nada.

Mas que droga! Acabou aqui, acabou! Simplesmente acabou!

Voltou sua atenção mais uma vez a janela, cuidadosa para que não a vissem, e reconheceu a mulher de cabelos volumosos e bem trajada, Jill Cássin. E seu parceiro, Steven Hunter, com uma escuta rente a boca, tenso, andando de um lado ao outro.

Jill havia levantado o rosto exatamente para onde Tracy estava, apontado em seguida ao falar com um agente. Tracy recuou com um passo atrás, sentindo as batidas de seu coração aumentar rápido demais, descontroladamente.

Acabou! Acabou! Acabou...

... de começar. E então sorriu. Tracy avistou um avental, uma touca, uns materiais para limpeza, e uma máscara descartável para rosto. Lembrou-se que Joey tinha alergia a pó, e aquele lugar era infestado de poeira... Seria perfeito!

Cinco policiais se revezavam nas duas entradas do hotel, a central e posterior, enquanto outros cinco subiam ao quarto de Tracy, em silêncio.

Jill fazia perguntas ao recepcionista da espelunca, mas ele parecia tão surpreso e atordoado que não falava nada. Pouco a pouco era possível ver uma horda de curiosos rodearem o local. Isso sim era apavorante.



- Oh, Deus!

A faxineira, de avental, levemente no sobrepeso e usando máscara largou a vassoura a se ver na mira de uma arma.

- Por favor, não!

Sua voz era rouca, doente.

Ela estava amedrontada.

O policial sorriu.

- Não se preocupe, dona. Não vamos fazer nada com a senhora.

E então ela se acalmou, depois coçou o nariz, os olhos vermelhos e tossiu um pouco.

- Sente-se bem, senhora?

- Um pouco de alergia ao mofo... nada demais.

Ele a estudou por um instante.

- Acho bom a senhora sair daqui, pode ser perigoso. Estamos atrás de Tracy Gummer.

Ela pareceu surpresa.

- Tracy Gummer, aqui? Não, não, só podem estar enganados. Nunca a vi por essas bandas. Nada suspeito.

- A mulher é esperta, engana bem. Não seria tão fácil assim, dona.

Bom saber.

Alguém gritou, o agente se virou.

- O que é?!

- Droga, vai ficar de conversa ou vai arrombar esse quarto?

O policial olhou para a faxineira.

- Saia daqui.

- Certo.

E ela se virou, tossiu, recolheu seus materiais e caminhou para os lances de escada.

A porta foi aberta com um chute. Três agentes entraram munidos de armas em punho. Se separaram, investigando local. Depois de um momento, quando um saía do banheiro, alguém anunciou:

- Ela fugiu.

Outro surgiu na porta, aflito. Berrou:

- A faxineira!

Tracy saía do hotel contando os passos, de cabeça baixa. Estava a poucos metros da rua, e então poderia se ocultar entre as pessoas. Deixou os materiais num canto e caminhou em direção a dois oficiais, passou entre eles, nem a notaram, e foi quando uma blusa enrolada caiu debaixo de sua camisa. Para sua surpresa, o oficial se abaixou e devolveu-a, sorrindo. Mas seu sorriso esvaiu quando encarou o par de olhos brilhantes e azeitonados.

Os agentes desceram as escadas feito um jato. Um foi até Jill.

- Tracy Gummer fugiu! Ela fugiu!

E foi quando avistou a cena à frente.

- Lá está ela!



- Você... – oficial lhe murmurara.

Tracy largou a blusa e arrancou o avental, fora descoberta. Não pensou, não houve tempo para isso, saiu em disparada. Enquanto via o chão passar depressa por baixo de seus pés ela tirou a máscara. Seu peito se enchia e esvaziava com pressa. Seu coração socava suas costelas com força. Ela era a caça, e seus caçadores estavam atrás dela, armados.

- Não atirem! – Berrou o tenente. – Há pessoas lá fora.

Olhou para todos.

- Vamos, peguem as viaturas!

Tracy voou por entre pessoas, se escondendo. Não poderia parar.

Que droga!

Ela corria, sentindo a tensão de suas panturrilhas, sentindo os músculos de suas pernas enrijecerem e amolecerem a cada passo largo que dava. O bafo do vento em seu rosto. Batia entre as pessoas como se estivesse com uma armadura no peito, corria contra elas.

Derrubou as compras de uma senhora.

- Ei! Olhe por onde anda!

Empurrou um casal.

- Devagar! Será que não vê que tem pessoas aqui?

Não poderia ver. Tinha de fugir, sumir.

Foi em direção a estação de metrô. Podia ouvir as sirenes logo atrás, altas, exasperantes. As pessoas se movendo, atordoadas, assustadas.

Ela poderia ser pega em Los Angeles, mas nada indicava que se entregaria tão fácil. Lembrou-se da touca, e tirou-a do bolso e pôs na cabeça. Olhou para os lados, desesperada.



Uma verdadeira tropa estava no encalço de Tracy Gummer. E Steven Hunter tinha o coração na mão. Berrava na escuta.

- Está vendo ela?

A voz dele soava crepitante na escuta.

- Acho que estou. – Falou um policial.

O detetive pareceu indignado.

- Ah, você acha?

Pausa.

- Certo. Onde?

Steven estava numa viatura, a caminho.

- Fale logo, onde?

Berrou mais uma vez. Por um momento lhe veio um palavrão na cabeça, mas se conteve para não dizer. Depois, passou a ligação para outros agentes.

- Não.

- Nada.

Sempre a mesma resposta.

Meu Deus.

Voltou à primeira.

- O que ela estava vestindo?

- Jeans. Casaco. Um chapéu... acho. Droga.

- O quê?

- Eu a perdi.

Steven ficou sem ar.

- Você a perdeu?

Não houve resposta.

Jill chegou à estação junto a mais dois policiais em sua viatura, e depois vieram mais, nas viaturas seguintes. Se reuniram num círculo, e ela passava informações a eles:

- Tem cabelo curto, preto; altura mais ou menos de 1, 60m; estava de calça jeans, casado, tênis esportivo.

Se espalharam, a estação apinhada de gente. Jill pegou sua escuta.

- Steven, onde você está?

Havia tensão em sua voz.

- Steven?

- A caminho, Jill. Estou com tenente da corporação. Encontre-a.

Ela encontraria.



Tracy precisava ter acesso ao vagão. Ele prometia fuga, segurança, seu corpo sem buracos de bala.

Tinha de se aproximar com calma, devagar, como qualquer outra pessoa. Não poderia despertar suspeitas. Havia um segurança próximo, com certeza já ciente que Tracy Gummer estava à solta, bem ali.



Jill prendeu a respiração, era quase inacreditável. Sublime por um momento. Agradeceu a Deus.

É Tracy. Lá está ela.

Tracy Gummer estava a poucos metros de distância. Jeans, casaco, touca, seus 1, 60m de altura se encontrando prestes a embarcar num dos vagões. Apressou os passos, deslizou por entre as pessoas.

Jill corria as cegas, empurrando qualquer um que viesse em seu caminho. Quando Tracy chegou às escadas, Jill avançou por cima, derrubando-a nos degraus, com o rosto para baixo. Ela gritou de dor, seu nariz jorrou sangue, sua cabeça bateu. Estava acabado, a algemou.

- Está presa, Tracy. Tem direito de permanecer em silêncio. Tem direito a um advogado. – Virando-a, ela tirou-lhe a touca. Precisava vê-la cara a cara para crer.

- Santo Deus!

Uma expressão de pavor invadiu o rosto de Jill Cássin.

Uma morena amedrontada com o rosto sangrando a encarava.

Não era Tracy.

Jill levou uns minutos para reagir. Estava se desculpando com a moça quando uma mulher passou apressada, subindo dois degraus de vez. Jill tirava as algemas da moça quando se deu conta.

- Pare agora! – Gritou. – Polícia!

Tracy estava na plataforma, ansiosa para que os vagões parassem e ela pudesse entrar em um. Podia ouvir logo atrás:

- Polícia! Fique onde está!

Jill entrou em contato pela escuta.

- Tracy Gummer está na plataforma. Rápido!

Ela olhou para todos os lados, Tracy havia desaparecido novamente.

O carro estava apinhado. Tracy tentou de todas a formas forçar sua entrada.

- Não está vendo? Está lotado!

E alguém a empurrou.

- Espere o próximo.

Mas ele também estava cheio.

Os gritos vinham cada vez mais altos, e ela podia sentir se aproximarem de si. Estava em pânico. Não havia escapatória. Fez o que pôde, foi até onde podia ter ido. Era o fim, a estação final. Termina aqui.

O vagão seguinte vinha, as pessoas se fundindo para entrarem feito uma onda nele. Tracy fazia parte dela.

- Tracy Gummer! Pare! Polícia!

Ela escutou seu nome, assim como o mar de gente ao seu lado. Todos começaram a olhar um para o outro, procurando Tracy.

- Tracy, onde?

- Cadê?

- Hã?

Steven encontrou Jill naquele amontoado.

- Onde... onde ela está?

Ele arfava.

As portas do vagão se abriram, e ela acompanhou a multidão, foi arrastada para dentro. Depois, o trem começou a andar, ganhou velocidade, e desapareceu.

Foi uma epifania.

Era noite, e Tracy caminhava pelas ruas, relembrando todo o pavor que sentira naquele tarde. Não tinha para onde ir. Não tinha o que fazer. Estava só. Logo lançariam sua nova imagem na TV e jornais ou qualquer outro meio de comunicação possível, e estaria perdida.

Uma viatura passou rente onde estava, e Tracy se meteu para a penumbra de um beco, esgueirando seu corpo para lá. Prendeu a respiração, e esperou que as luzes do carro se dissipassem. Esvaziou os pulmões quando o viu ir embora.

Não dava para viver assim, era impossível. Seria pega a qualquer momento, em qualquer deslize. O máximo que duraria nas ruas seria dois dias e contando os minutos. Precisava de ajuda, e receou isso. Mas não havia escapatória. Era viver ou morrer, mais uma vez.

Remexeu nos bolsos, tinha algumas moedas e um papel. Olhou, era um número.

Procurou por um orelhão, havia um atravessando a rua. Foi até ele, se encolhendo debaixo de seu casaco.

Tirou duas moedas e pegou o número. Demorou uns segundos até que alguém atendesse. A voz no outro lado dizia:

- Pronto. Quem fala?

Havia tempo de desligar e esquecer tudo. Não seria justo meter um inocente nessa enrascada.

- Alô?

Vamos, Tracy, desligue!

- Alguém?

Mas era sua última chance. Não tinha outro jeito. Era sua esperança...

- Alguém aí?

A sua saída.

Respirou fundo, enchendo o máximo que pôde seu peito, e então respondeu:

- Preciso que me encontre, Michael.

84 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Qua Set 12 2012, 10:51

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 27

Kenny Nolan não pôde acreditar no que dizia o noticiário.

Tracy aqui em Los Angeles? E ainda conseguiu escapar?

Ele começou a rir.

Garota esperta.

Ele ainda podia sentir o temor daquela manhã. As mãos dela, frágeis, inseguras, apertando uma arma contra ele. O cano frio, sua respiração estrepita, cristais de suor escorrendo em linhas sinuosas de sua testa. Seria um homem morto, mas devia ter imaginado que Tracy nunca o mataria. Era apaixonada.

Mas gostava dela de alguma forma, se simpatizava. Não passava de uma pobre garota. Tinha pena.

Deu um último gole em sua bebida. Alguém se aproximou dele no balcão.

- Vai querer mais alguma coisa, senhor?

Ele tirou uns dólares do bolso.

- Não. Obrigado.

Pegou sua mala e saiu. Procuraria um lugar para dormir e então daria início ao seu plano. Não sairia perdendo nessa história... Michael Jackson lhe asseguraria disso.



Um automóvel parou discreto, e a porta de acompanhante se abriu. Tracy olhou para os lados, se encolheu, e então entrou. Michael estava ali, e ela o abraçou com toda a força. Foi surpreendido por aquele súbito ato de carinho, mas depois tornou a envolver seus braços nela, acalmando-a. Há tempos Tracy não se sentia em segurança, como nesse momento.

- Obrigada, Michael. Obrigada por ter vindo. Obrigada de verdade, eu...

Michael se afastou, enternecendo-a com seu sorriso.

- Já me sinto agradecido.

Então ele estudou-a por um breve instante.

- Você está bem? Soube o que aconteceu pelo noticiário.

De cabeça baixa, Tracy lhe ergueu os olhos.

- Acho que sim. Foi um milagre, não sei como pude escapar. Eles estavam aos montes, muito, mas muito próximos de mim e...

Era como se revivesse a cena mais uma vez, sentindo o perigo beijar-lhe prometendo a morte.

Michael olhou para as mãos trêmulas de Tracy sobre o colo. Levou a sua sobre as dela, frias, apertando-as.

Como as de Diana.

Tracy olhou para o toque e então se voltou a ele.

Michael lhe assegurou:

- Vai ficar tudo bem. Passará a noite em minha casa, mas pela manhã terei de levá-la para outro lugar. Espero que entenda.

Ela assentiu.

- Claro. Está ótimo.

E olhou para a ele, depois, as mãos sobre o volante, e então que se deu conta. Michael veio até ela, só.

Foi quando o carro deu partida e atingiu a estrada que o analisou mais atentamente, por um instante, prestando atenção em seu perfil, em seus movimentos na direção, e depois em sua expressão preocupada. Devia ter noção que arriscava sua vida e carreira ajudando Tracy. Depois de uns 40 minutos, o automóvel parou. Tracy sentiu-se exausta.

- Venha, vamos descer.

Entraram por trás da casa, em silêncio, e Michael acendeu as luzes da cozinha.

- Está com fome?

Sim.

- Não.

Michael ergueu uma sobrancelha, desconfiado.

- Tem certeza? – ele foi até a mesa e pegou uma maçã. – Pegue.

Sentia-se embaraçada para dizer que sim, já abusara tanto da boa vontade dele.

- Estou cansada.

- Certo. Venha comigo.

Subiram as escadas, sem um único ruído. Caminharam pelo corredor e adentraram a última porta. Era um quarto de tamanho médio, com uma cama confortável, uma cômoda larga de madeira envernizada com quatro gavetas, cortinas sobre a janela e outros adornos à parte.

- É um quarto de hóspedes.

- Maravilhoso. Obrigada.

Tracy estava sorrindo. Michael olhou para ela.

- Esteja pronta, voltarei bem cedo. Não quero que ninguém saiba que está aqui. Pode ser perigoso para você... nós.

Ela aquiesceu.

- Entendo.

- Durma bem.

Ele saiu, fechando a porta.

Tracy removeu o casaco e pendurou-o. Tirou os sapatos e massageou os pés, depois, arriou-se na cama. Apagou o abajur. Não conseguia dormir, seu corpo ainda estava acordado relembrando àquela tarde, e todo o resto. Ligou a luz novamente. Sentou-se, pensou em sua mãe. Queria vê-la mais uma vez, só por um momento que fosse. E então teve certeza, Diana tinha um grande amigo, e estava certa de ter sido apaixonada por ele. Michael era um homem bom.

Tracy voltou a deitar, apagou a luz e se virou para a parede, dormiu com a lembrança do rosto dele na mente.



- Tracy, acorde!

Michael a estava sacudindo, Tracy abriu os olhos de repente. Ele parecia aflito.

- Temos que sair daqui, depressa.

- Mas o quê?

Ela consultou o relógio sobre a mesinha de cabeceira.

- Faz somente duas horas que chegamos aqui!

Michael se levantou, foi até a janela e afastou uma pequena brecha na cortina, olhou para baixo.

- Você não entenderia. Vamos, se arrume! – Instava, desesperado.

Voltou-se a Tracy, ela calçava os tênis.

- Em cinco minutos quero vê-la lá embaixo.

Tracy assentiu, confusa. Quando ele saiu, olhou pela janela esperando entender alguma coisa, e entendeu. Havia um homem berrando em seu portão e ameaçando chamar a polícia. Uma série de seguranças tentava contê-lo, as luzes da vizinhança começaram a acender.

- Mas que droga!

Tracy pegou seu casaco e saiu do quarto. Verificou se o corredor estava vazio, algumas portas se encontravam escancaradas e as luzes do ambiente acesas. Ela passou depressa, chegou até a escada.

- Monsieur – Hélène parecia assustada – é Terry!

- Sei disso, e ele está embriagado e confuso. Não deixe meus filhos irem para fora.

- Sí, sí.

Terry conseguiu se safar dos seguranças e entrou na sala de Michael. Estava completamente arrebentado, um de seus olhos com uma rodela grande, roxa e inchada. Sua boca com um filete de sangue. Sua roupa maltrapilha. Andava cambaleando, cheio de dor. Ficaram frente a frente.

- Terry, me escute, você não está bem. Vamos te levar para o hospital.

- Não estou bem? Mas é claro que não estou seu filho da mãe!

Michael se aproximou dele, tentando acalmá-lo. Terry estava fora de si. Depois, ele olhou para Hélène.

- Deixe-nos a sós, sua francesinha de boate – e finalizou a frase deixando a boca aberta, os olhos numa expressão distante, alucinógena.

Hélène alargou os passos.

Tracy descia a escada quando viu a cena. Parou no corrimão, agachada, em silêncio. Uns seguranças apareceram e agarraram Terry a pulso. Ele se remexeu, contorceu-se, chutou o ar, sem sucesso.

- Estou sobre ameaça de morte. E devo mais de dois milhões de dólares por sua causa.

Ele só podia estar louco.

Mas não estava. Tempo atrás, quando recebera a ligação de Godofredo Merrivalle, ele deixara bem claro:

- Pode se dar muito bem, Terry, amigo, ou pode se dar mal. Sabe como trato aqueles que cumprem seus acordos à minha pessoa e aqueles que não cumprem.

Terry engolira em seco.

- Claro, senhor. A parceria entre sua filha e Michael irá acontecer. Providenciarei isso. Mande-a para cá, para Los Angeles.

- Ótimo, Sr. Terence. Farei isso. Sua quantia estará pronta para ser depositada assim que conseguir, caso contrário, Claire ligará para mim e eu saberei o que fazer. Sei que está me entendendo, não é, parceiro?

- Sim, senhor.

- Bom fazer negócios com você.

E a ligação se findou. Terry teria de fazer com que Michael aceitasse a parceria, Godofredo estava disposto a pagar muito bem por isso, à sua filhinha, caso contrário, perderia o seu dinheiro, e o pior, talvez até a vida. Os Merrivalle honraram suas palavras e Terry Terence sabia disso.



- O quê?!

Michael pareceu descrente, aturdido.

- “O quê” foi o que eu disse quando invadiram minha casa e começaram a me socar. Pensei que fosse morrer com os chutes e depois com a droga que me deram, me fez vomitar até que cuspisse sangue, e isso por sua causa seu egoísta filho de uma...

E Terry livrou um dos braços, fechou os dedos e lançou a mão num soco pesado no lado esquerdo do rosto de Michael, rindo em seguida, totalmente ébrio. Michael por pouco não caiu, um de seus seguranças foi até ele ajudando-o a se recompor. Instintivamente levou a mão à boca, seus dentes se apertaram no exato instante do soco e ele mordeu a parte interna do lábio inferior. Sua boca tornou-se vermelha, e seus dentes contornados por sangue. Ele moveu o maxilar. Fitou Terry com uma expressão impiedosa.

Paris que estava junto a seus irmãos e Hélène, aflitos, no outro lado da sala, correu até seu pai, agarrando-se a uma perna dele. Olhando para seu rosto e dedos rente a boca mergulhados em sangue. Michael olhou para Hélène, e ela entendeu que era para que pegasse a menina. Agarrou Paris e levou todos para mais fundo da casa, com a garota berrando e chorando em seu ombro, mexendo as mãos em direção ao pai.

Terry falava coisas sem sentido, desconexas, e o filete vermelho de sua boca escorria sujando o piso. Ele estava quase sem ar, com dificuldade para pronunciar as palavras. A sala girando e se comprimindo contra ele. Sufocante, asfixiante. Seus olhos viraram, as íris para cima. Estava mole. Era a droga.

Tornou a falar, engrolado e hesitante:

- Você... vai... – puxou ar, os olhos fechando - me pagar, Michael.

E então Michael o viu desmaiar, impotente, débil, e disse aos seus homens:

- Por Deus – ele segurou a bola de sangue dentro da boca -, andem – então mexeu uma das mãos, apontando para fora -, peguem o carro e corram para um hospital!

- Senhor, não vai...?

Michael meneou a cabeça negativamente.

- Estou... bem. Agora andem!

Depois, Michael varreu a sala com os olhos, Hélène provavelmente estava nos fundos com seus filhos, e Tracy...

Ela estava pálida como um cadáver atrás do corrimão, agachada, feito uma garota. Ele foi até ela. Tracy tremia, imóvel. Ela levantou a face para ele, assustada.

- Tracy, você está bem?

Michael sentiu uma pontada de dor no maxilar ao falar, e fez uma careta.

- Quem era ele?

- Não se preocupe. Foi um mal entendido.

Tracy se levantou, agarrou a gola da camisa de Michael, pressionou-o na parede e aproximou seu rosto.

- QUEM ERA ELE?

Michael tirou as mãos dela de sua camisa e a segurou pelos punhos.

- Mas o que deu em você? O que tem a ver com isso?

Então ela abaixou o olhar, respirou fundo, e tornou a fitá-lo.

- O nome dele é Adam Penn, e foi quem esteve com Diana pela última vez. Ele é meu pai. E agora me diga, o que você fez com minha mãe?



Foi nesse momento que viram luzes vermelhas e azuis invadirem as janelas da sala, dançando em arco-íris de duas cores junto com o toque da sirene. Alguém da vizinhança comunicou o alvoroço à polícia. Eles trocaram olhares. Michael agarrou a mão de Tracy.

- Venha!

Mas ela puxou.

- Só se eu estivesse maluca. Não vou a lugar algum com você!

Michael revirou os olhos.

- Pare de agir como uma adolescente e vamos!

Agarrou-a pelo braço arrastando-a para fora. Tracy bufava.

- Pode parar de me apertar? Está machucando!

- Ah - e ele percebeu que estava mesmo apertando com um pouco mais de força. -Desculpe.

Abaixaram para tentarem se ocultar das luzes que vinham das viaturas. De onde estavam, dava para se ver alguns vizinhos, de pijamas, descrevendo o acontecido à polícia, que vaziam ligeiras anotações em bloquinhos.

Chegaram rente ao carro. Michael tirou as chaves do bolso, olhou para elas e depois para Tracy.

- Tem noção da enrascada que estou me metendo por você?

Tracy não o respondeu, em vez disso tomou as chaves dele e se adiantou ao lado do motorista. Esgueirou-se, agachada, até a porta, inseriu a chave. Pôde ouvir Michael a chamar detrás. Ela se virou.

- Dá pra você calar essa boca e engolir esse sangue? Pelo amor de Deus! Você ainda me deve boas explicações.

Michael arregalou os olhos, incrédulo.

Mas que garota atrevida!

Tracy deslizou sua mão e abriu a porta, escorregou seu corpo para dentro, depois, para o lado do passageiro. Chamou-o.



- Sim, policial, é o que estou dizendo. Havia um senhor bem ali em frente, gritando e provocando a maior algazarra. Ameaçando alguém. São quase uma e meia da manhã e...

- Certo. – E o policial fez mais uma anotação. Depois, olhou para os lados. – Pelo jeito as coisas já se acalmaram por aqui. Podem ir para suas casas, por favor. Comuniquem-nos se houver mais alguma coisa. – Voltou-se aos seus parceiros: - Vamos embora, pessoal. A área está limpa.

Dois minutos após deixarem o local, Michael e Tracy caíram para a estrada. O que não sabiam é que alguém os espreitou naquele momento. Hélène observou seu patrão se esgueirar para dentro do carro e ajeitar-se no banco ao lado de uma sombra, bem feminina, e sair portões afora como se fosse um foragido da polícia.

- Monsieur anda mui estrranho... mui estrranho.

E ela se lembrou que já vira aquela silhueta em algum lugar...

Algun lugarr...

Levou as crianças para cama.



Fez duas horas que estavam na estrada, e Michael dirigia sem piscar.

- Michael, quer descansar um pouco? Eu posso guiar se quiser.

- Não, eu estou bem.

- Não parece.

- Acredite em mim, estou bem.

Pausa.

- Para onde está me levando?

- Tenho um chalé afastado da cidade. Você ficará lá até que eu dê um jeito nisso tudo.

Então ela se virou, olhou para fora. Não era possível ver quase nada naquele breu. As luzes da estrada de nada adiantavam. Mas pelo completo silêncio, sabia que já estavam longe da agitação de Santa Mônica.

Voltou-se a Michael:

- Por que está fazendo isso por mim?

Michael olhou de relance para ela.

- É o mínimo que posso fazer. Sua mãe confiava em mim e eu não pude ajudá-la quando mais precisou.

Então Tracy soube, Michael realmente não se ligava ao desaparecimento de sua mãe. Envergonhou-se por pensar que sim. E ele estava ali, fugindo ao lado dela no meio da noite, para só Deus sabe onde.

Tracy olhou para ele, estudando-o mais uma vez. Não soube quanto tempo permaneceu assim, mas descobriu que era confortante observar seu rosto. Michael moveu a cabeça.

- Está me deixando sem jeito, por que me olha tanto?

Ela pensou, mas não tinha uma resposta.

- Não sei.

- Por que não dorme um pouco? Logo estaremos lá.

Ele fez outra careta ao falar. Levou uma mão ao maxilar onde dava algumas pontadas irritantes.

- Michael, pare o carro.

- Hã? Não! Aqui? Mas é claro que não! Olhe para fora, Deus sabe lá o que se tem por aí. Pode ser perigoso.

- Pare o carro.

- Pode esquecer.

Ela não desistiria.

- Por favor, pare o carro! Eu preciso... – E olhou para fora. Michael entendeu.

- Será que não pode aguentar até chegarmos lá?

- Eu acho que não.

Um suspiro.

- Está bem.

Ele diminuiu a velocidade e encostou-se na beira da estrada. Destrancou o lado da porta de Tracy.

- Seja rápida, e não vá muito longe.

Foi surpreendido quando Tracy começou a se desfazer de seu casaco.

- Olhe para fora.

Inevitável, ele obedeceu.

- Tracy, mas o que está fazendo?

- Não comece a reclamar!

Ela removeu sua camisa e vestiu-se com o casaco novamente.

- Olhe para mim, agora.

E tocou-lhe, virando o rosto dele para o seu. Analisou a região rente ao queixo. Estava roxa. Fora um soco e tanto.

- Tracy, não acredito que me fez parar nesse lugar para isso.

- Você parece um velho chato quando começa a resmungar, podia dar um tempo.

- E você poderia parar de agir como uma adolescente.

Ela o fitou, apertando os lábios.

- Essa é a terceira vez. Na próxima vai levar outro soco, e acredite, vai ser bem pior que esse.

Michael expirou o ar com força e fez menção de dar a partida, mas Tracy o impediu.

- Você mal pode falar com esse sangue se acumulando na boca. Deixe eu te ajudar! - E ela pegou sua camisa. – Cuspa isso, e vire para mim.

Ele o fez. Tracy começou a limpar-lhe o canto da boca. Depois, sorriu, admirando seu magnífico trabalho. Michael com sua expressão impassível.

- Viu? Não demorou nada!

Ele voltou sua atenção à estrada.

- Só o tempo de um maluco nos atacar. Nada mais.

- Ah, você reclama demais! Deveria me agradecer.

O resto do trajeto foi num completo silêncio, e Michael descobriu o porquê quando chegaram ao seu chalé. Tracy havia adormecido.

Ele abriu os portões e voltou para o carro, guiou para dentro e parou. Depois saiu, deu a volta e foi até Tracy. Iria acordá-la, mas preferiu não fazê-lo. Olhou-a por um instante com ajuda dos faróis acesos que batiam na parede da garagem e refletiam de volta. Como era semelhante à Diana. E por um momento, Michael se relembrou do beijo, daquele beijo.

Não conseguia acreditar que uma garota como essa, tão frágil teria sido capaz de tentar matar alguém, Kenny Nolan. Mas isso, ele teria certeza depois, tinha muito que conversar com Tracy.

Michael abriu mais a porta do carro e deslizou uma mão para debaixo das pernas de Tracy e outra, por trás de suas costas. Erguendo-a, jogou um de seus braços ao redor de seus ombros e deitou sua cabeça em seu peito. Foram para dentro.

Fazia alguns anos desde que Michael esteve ali pela última vez, mas sempre contratou pessoas para que cuidassem de sua propriedade, e agora ele pôde se certificar que fizeram um bom trabalho. Seguiu para um quarto – havia três – e deitou Tracy numa das camas. Cobriu-a e sorriu ao vê-la dormir. Depois, se retirou, seguindo para outro. Nunca desejou tanto uma cama como naquela noite.



Era manhã, e Paige falava com sua mãe.

- Ah, diga que estou com dor de cabeça.

- Paige...

- Não quero vê-lo. Ele me cansa.

- Ele está apaixonado.

Paige bufou.

- Por uma ilusão. Não gosto dele. Por que não o casa com Connie? Tenho certeza que ela ficaria feliz.

Marie se aproximou.

- Você sabe bem o porquê. Além do mais, Davey é um homem de porte, cuidará bem de você depois do casamento. Vai ver só! Aprenderá a gostar dele.

Ela suspirou, erguendo-se da cama.

- Ele está lá embaixo?

- Está sim.

- Vou me aprontar. Diga que já desço.

- Fique maravilhosa.

Davey Preston estava cada dia mais interessado em Paige Miller. Era a garota perfeita, e faria de tudo para tê-la, para casar o quanto antes. E a levaria para um passeio a dois, inesquecível. Estava terminantemente apaixonado.

E Constance se dera conta disso. Por isso estava indo ao encontro de Michael, em sua casa. Precisava convencê-lo de uma vez que ele e Paige ainda se amavam, e que precisavam voltar.

- Hum, posso saberr quem é a senhorra?

Era uma empregadinha de quinta que falava com ela. Cheia de si, mas não era nada.

- Senhora ainda não, meu bem. Mas logo, logo, com ajuda do seu patrãozinho, viu?

O quê?

Hélène sentiu uma palpitação.

- Ele se encontra?

Michael não dera as caras desde noite passada quando saiu às escondidas e acompanhado. Nem ligar para perguntar sobre seus filhos ou o estado de Terry, fizera.

- Non, senhorrita. El’ non está. Saiu bem cedo e só estarrá de volta a tarrde.

- Tudo bem. Diga a ele que estive aqui. É de extrema urgência. Diga que sou Connie, e ele saberá de quem se trata.

- Dirrei sí.

Mas é claro que não!

Hélène teria de abrir o jogo com Michael, e isso, de uma forma nada convencional.

85 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Qua Set 12 2012, 10:52

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 28

- O que é isso?

- Não sei. Apenas coma.

Michael lhe empurrou um prato com alguma coisa cremosa e sem cheiro. Tracy pegou uma colher e colocou na borda, depois, levou até a boca, hesitante.

- Não vai comer, não é?

Tracy afastou o prato jogando a colher dentro. Olhou para ele.

- Não.

Ela se levantou, circundou a mesa e abriu um armário ali próximo. Pegou uma caixa amarela. Virou-se a Michael.

- Então é mingau?

- Eu acho que sim.

- Isso venceu há dois anos!

Michael entortou a boca.

- Desculpe, mas a despensa está vazia. O chalé estava inabitado, então... Volto mais tarde com algumas coisas.

Ela se aproximou, apoiou uma das mãos no recosto da cadeira dele, ainda lendo a embalagem. Olhou para Michael.

- Seria idiota se eu sugerisse que comecemos fora, não é?

- Muito. O comércio mais próximo fica a 200 km, e os demais motivos eu acredito que não é preciso dizer.

Uma foragida da polícia saindo para um café da manhã ao lado do astro pop mais conhecido do planeta. Realmente, não era preciso dizer.

- Você está certo.

Tracy voltou a se sentar, trouxe o prato para perto de si. Observou-o por um momento, depois, ergueu os olhos para Michael.

- Que foi? – ele inquiriu.

- Se eu passar mal, a culpa é sua.

- Olhe para mim. Eu estou bem.

- Comeu isso?

E ela moveu os olhos para o prato.

- Aham.

Michael soltou uma risadinha. Tracy observou-o.

- Ah, você é engraçado.

Ela sorriu, as maçãs delicadamente rubras, dando um toque juvenil a sua face.

- Pensei que eu fosse um velho chato.

Fitou-o por um instante, carinhosa.

- Não, não é.

Michael apertou os lábios, insinuando um sorriso. Olhou com ternura para ela. E depois de um momento, quando Tracy levou duas colheradas à boca, ele indagou, hesitante:

- Quem é Adam Penn, Tracy? Você falou algo sobre ele ontem... com relação à Diana. O que estava querendo dizer?

Ela respondeu depois de uns segundos. Não gostava de falar ou relembrar sobre Adam, era dolorido demais, lhe abria feridas muito profundas.

- Meu pai. Aquele homem que entrou em sua casa. – Falou, seca.

Brincou um pouco com a pasta sem cheiro e sabor. Michael pareceu perplexo.

- Terry?

- O nome dele é Terry?

Perguntou de imediato, quase atropelando a última fala de Michael.

- Terry Terence. – Finalizou ele.

Tracy jogou a colher no prato e franziu o rosto. Murmurou algo que Michael não pôde ouvir.

Filho da mãe! Enganou mais uma vez.

- Eu o conheci como Adam Penn, e tinha 14 anos quando ele apareceu em minha casa. Desde então, eu e minha mãe não tivemos paz.

Michael ergueu uma das sobrancelhas.

- Não deve ser a mesma pessoa.

Então Tracy estudou a expressão dele, Michael parecia confuso também.

- Nunca esqueceria aquele rosto, Michael.

- Ele estava ferido.

- Mas aquele sorriso... os olhos... é ele.

O sorriso efusivo e a expressão gentil transformados pela raiva. Era idêntico.

Michael não acreditava ou não queria isso. Ela só poderia estar enganada.

Terry? Meu amigo? Não! Isso não é possível!

- Não sei, foi tudo muito rápido. Você estava na escada, agachada, talvez não tenha visto direito... deve ter se confundido.

Ela suspirou, e depois se voltou a ele.

- Sei que não.

Mas Michael precisaria de uma confirmação, de uma certeza. De uma foto. Era disso que precisava, de uma foto. Mostraria a ela e então se daria conta que não passava de um infeliz engano. Terry não poderia ter qualquer ligação com o desaparecimento de Diana. Não, claro que não.

Nunca!

Michael o conhecia por anos e muito bem. Já chegara até a segredar sobre Diana, e Terry sempre se mostrou indiferente. Nada suspeito.

De repente, ele saiu de seus devaneios quando teve a mão de Tracy sobre as suas, frágil, delicada. Ela o fitava, mas não como minutos antes, havia algo a mais em seus olhos, havia dor. Um poço.

- Está mesmo disposto a me ajudar, Michael? De verdade? Acredita mesmo em mim?

Ele piscou algumas vezes e então a mirou também, sério.

- Eu sei que é uma pessoa boa, Tracy. Caso contrário, eu já teria lhe entregado a polícia. Seria o certo a fazer.

- Como pode saber disso? Ter tanta certeza?

- Não sei, apenas sinto. Você me passa isso.

- Não matei Kenny, mas o quis fazer, como nunca quis algo na vida.

As pupilas de Tracy cresceram diante de tal revelação, relembrando a sensação de mirar uma arma para Kenny. A sensação de poder, de vitória, de vingança, seus batimentos rápidos e ansiados por aquilo, seguidos por pena. Os lábios de Michael se abriram. Ele tentava formular o que dizer.

- Queria matar uma... – estava quase sem voz, sem ar, fôlego - pessoa?

A voz dele era de total incredulidade.

- Não qualquer pessoa. Kenny Nolan. – ela fez uma pausa. - Deus, ele merecia isso! No momento eu não pude... estava tudo preparado, o plano seria perfeito... mas eu o amava – fitou Michael. - Como se mata alguém que se ama?

Michael permaneceu em silêncio.

- Tracy... – fio de voz. Os olhos dela começaram a brilhar; as lágrimas se acumulando nos cantos dos olhos.

- Adam... – ela balançou a cabeça – ou Terry, seja qual for o verdadeiro nome dele, disse que amava minha mãe. Eu vi, eu ouvi isso. E por um momento eu acreditei. Pensei que ele fosse um homem bom, mas ele queria me matar... queria matar sua própria filha!

Outra pausa. Ela abaixou seu casaco deixando Michael perplexo num breve instante, exibindo seu colo e ombros nus.

– Está vendo isso?

E ela moveu os olhos para uma cicatriz no lado esquerdo do ombro, indo em direção ao braço, não muito grande, mas nada bonito de se ver. Uma linha avermelhada mesclando com o rosa ao redor, entrando em contraste a sua pele clara como neve.

- Foi quando fugi dele. – Ela fez mais pausa, buscando ar dessa vez. - Algo aqui dentro diz que ele é o culpado pelo desaparecimento de minha mãe. Eu sei, eu sei disso. Santo Deus, ela não me largaria como fez sem um motivo! – Sua voz tornou-se indignada.

Não era a marca que lhe doía, mas a lembrança dela. As lágrimas começaram a vir involuntariamente. Fixou seus olhos nos olhos profundos de Michael.

- Ela não faria isso, Michael. Eu não passava de uma criança!

Sua voz ficou fraca, e era como se entrasse em alguma espécie de transe:

- Não faria... não faria... não faria...

Michael se viu impotente naquele momento, nada do que dissesse ou fizesse aliviaria o que ela sentia, arrancaria aquela dor que a feria. Preferiu permanecer em silêncio, quieto, e após um longo momento, ela se levantou, encolheu-se debaixo do casaco, enxugou o rosto e desapareceu pelo corredor como uma sombra que morre no cair da noite.

Matar Kenny não valeria somente uma vingança, valeria duas. Por Diana. E Tracy não pôde fazê-lo.

Eu te amo, ele havia dito.

Vou estar sempre contigo. Já disse, vamos ser felizes.

Era só mais uma mentira.



Joey Strandy se encontrava numa sala cinza e pequena, recheada somente por uma mesa e mais duas cadeiras de ferro. Dois policiais montavam guarda na porta de uma janelinha com quatro grades, onde eles podiam identificar quem fosse entrar.

Joey mantinha seus olhos fixos na imagem chuviscada da TV até uma repórter anunciar:

“Tracy Gummer continua foragida após ação policial na última tarde. A polícia não possui qualquer...”

Ela continuou, mas Joey não pôde ouvir mais.

Jill e Steven interrogavam alguns agentes sobre Tracy, à procura de qualquer informação válida para encontrá-la. Quase 24hs haviam se extinguido e era como se Tracy Gummer nunca tivesse existido. Havia simplesmente desaparecido, sem rastros, sem cheiro, nada. Um brilhante passe de mágica.

- Detetive Cássin, Detetive Hunter.

Ambos se viraram. Era um assistente que se dirigia a eles com uma ligeira entonação afobada na voz.

- Joey Strandy está descontrolado. Exige falar com vocês.



- VOCÊS-A-PERDERAM!

Bradou Joey quase silabicamente, sendo segurado à força por dois policiais. E ele estava irritado, muito irritado.

- Por quê? Por que não a pegaram? Eu dei as informações!

- Nós sabemos disso – falou Jill. – Agora se acalme.

- A deveriam ter pego!

Steven interpelou:

- Foi para isso que nos chamou, Sr. Strandy? Para vermos essa cena deplorável?

Joey moveu o rosto para Steven.

- Mas é claro que não, seu imbecil!

E ele se contorceu, o que fez os homenzarrões o apertar com mais rigidez.

- Se quer nos ajudar, então sugiro que não nos chame mais. – Olhou para Jill. – Vamos sair daqui.

Eles já estavam próximos a porta quando Joey tomou a voz novamente:

- Se quiserem pegá-la terão que me ouvir.



- E o que fazia naquela casa?

- É uma longa história.

Joey sabia, havia algo ali. Tracy estaria lá.



Michael havia chegado em casa. Perguntou a Hélène:

- Como estão as crianças?

Ele parecia preocupado.

- Estão bem, monsieur.

- Vou vê-los.

Começou a subir os lances de escada depressa. Hélène observou-o. De alguma forma, a presença dele não era mais suficiente como tempos ou anos atrás, necessitava como o ar senti-lo, nem que por uma vez. Seria loucura, mas ela o faria. Não passaria de hoje.

Michael findava um abraço em Paris quando Hélène surgiu logo atrás.

- Monsieur, quer qui eu preparre algo?

Ele pensou por um instante.

- Estou exausto. Poderia preparar um banho?

- Clarro.

Ele tinha de ser rápido, pegar alguns mantimentos e itens de higiene. Levaria tudo para Tracy. Talvez algumas peças de roupas também.

Deus, que loucura tudo isso!

Mas não podia negar, estava gostando, apesar do risco. A situação era excitante. Há tempos não se sentia tão jovem. E além do mais, Tracy precisava de sua ajuda.

Michael entrou em seu quarto, seguiu para o banheiro. Começou a se desfazer das roupas, ansioso para deitar na banheira. Hélène entrou, trancou a porta da suíte e foi de encontro a ele.

Um murmúrio.

- Hélène?

Michael paralisou. Os dedos segurando o botão da camisa.

Não houve tempo para dizer qualquer outra coisa, Hélène avançou. Beijou-o. Um impulso, mas um impulso ansiado. Foi bom, Hélène gostou. Ele beijava bem. E foi nesse exato instante que começaram a bater na porta do quarto, insistentemente. Michael a segurou pelos braços e afastou, quase abruptamente. Correu para atender, a porta trancada. Voltou até Hélène, furioso.

- As chaves.

Sua voz era ríspida. Ela contraiu e entregou-as, hesitante. A face levemente rubra.

Ele se virou, mas parou, olhou para Hélène, dizendo:

- Isso merece uma boa explicação. Pode ter certeza.

Abriu a porta e outro empregado, agitado, disse:

- Desculpe, senhor. Sei que não tenho permissão para subir, mas...

- Diga de uma vez.

Michael ainda estava irritado por causa de Hélène. O criado respirou.

- A polícia, senhor. A polícia está aqui.

86 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Qua Set 12 2012, 10:52

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 29

- Se isso for alguma brincadeira do Strandy, eu juro, não sei do que sou capaz de fazer.

E Jill olhou para Steven.

- Acalme-se.

Continuaram atentos à riqueza de adornos na sala, até que uma voz os trouxe de volta:

- Em que posso ajudá-los?

Ficaram mudos por breves segundos, e Jill adiantou-se em apresentá-los exibindo um distintivo.

- Sou a Detetive Jill e esse é meu parceiro Steven Hunter.

Michael apertou a mão dele.

- Somos os responsáveis pelo caso de Tracy Gummer.

- Já ouvi falar.

O astro olhou para ambos.

- Acho que os vi em algum lugar.

Steven interpelou:

- Talvez nos jornais.

Michael demorou uns segundos para responder.

- Pode ser.

Reparou que ambos estavam em pé e apontou para o sofá para que se sentassem.

- Por favor, acomodem-se. E ainda não me disseram no que posso ser útil. – Michael também se sentou, logo após.

Steven trocou rapidamente um olhar com Jill.

- Há suspeitas de Tracy Gummer estar aqui.

Michael franziu o cenho e depois soltou uma breve risadinha baixa. Levou uma das mãos ao queixo, massageando-o com as pontas dos dedos. Levantou o olhar para Steven.

- Bem, eu acho um pouco de loucura, se não se importam.

- Também achamos, senhor. Mas devemos seguir o protocolo.

O astro ergueu uma sobrancelha.

- Revistar minha casa e interrogar meus empregados?

Steven meneou a cabeça positivamente.

- Tem um mandado para isso?

- Não, senhor.

Michael moveu os olhos.

- Terão de me desculpar. Mas não aceito.



Jill inclinou-se mais para frente.

- Sr. Jackson, sei que isso parece estranho, mas não devemos desperdiçar qualquer suspeita ou chance de encontrarmos Tracy. Estamos correndo contra o tempo. Por favor.

Ele pensou por um instante, depois, fitou Jill.

- Está bem. Mas... peço, não toquem em nada.

- Faremos isso.



Depois de pouco mais de uma hora os empregados se reuniram. Para todas as perguntas que os detetives faziam, a resposta era sempre a mesma:

- Não.

Mas havia uma criada que parecia tensa; desconfortável à presença deles. E era como se quisesse dizer algo, mas tivesse de manter segredo. Suas mãos sobre o avental se apertavam, e seus olhos se moviam evitando os olhares de Jill e Steven. Quando todos retornaram aos seus afazeres, eles se aproximaram dela.

- Somos os Detetives Jill e Steven, de Nova York.

- Sei diss’.

- Se houver algo para nos falar, qualquer coisa, ligue para nós, tudo bem?

E Steven entregou-lhe um cartão.

- Clarro.

Hélène pegou-o, hesitante, e guardou-o no bolso de seu avental.

- Qualquer coisa. – Repetiram eles.

- Qualquerr coisa. – Assentiu Hélène.

E eles se foram.



- Meu Deus, eu menti!

E Michael se deixou despencar no sofá ao lado de Tracy, ainda surpreso com o que fizera.

- Você o quê?

- Não entendo o porquê, mas a polícia foi em minha casa à sua procura.

Tracy parou imediatamente com o que fazia. Sua expressão era de pura incredulidade. Mas de alguma forma ela soube.

Joey.

- Tracy, escutou o que eu disse?

Ela piscou algumas vezes antes de olhar para Michael.

- Ah, sim. E o que foi que você disse?

Ela se levantou levando as sacolas de mantimentos e outros itens para a mesa na cozinha. Podia ouvir a voz de Michael vindo da sala.

- Bem, foi o que eu disse, eu menti.

A voz dele parecia aumentar.

- Disse que parecia loucura.

Aumentou um pouco mais, e então ele surgiu na entrada do ambiente, trajando uma calça escura, mocassins, uma camiseta clara e uma jaqueta sobre. Seus fios escovados brincavam em seus ombros, e ele removeu os óculos escuros para olhar para Tracy.

- Trouxe algumas roupas também, espero que sirvam.

E Tracy removeu um agasalho lilás de algodão da sacola, e aproximou de seu corpo abaixando o queixo para tentar ver como ficava em si. Depois, olhou para Michael, sorrindo.

- Vai servir. Obrigada.

Ele esboçou um sorriso. Caminhou até Tracy e ajudou-a a recolher o resto e a guardar. Tracy erguia os pés para levar uns enlatados no alto do armário, e Michael foi até ela e colocou-os para si. Tracy se virou, ajeitando a roupa, enquanto olhava para ele.

- A altura não me favorece tanto.

Michael acariciou seu braço.

- Não se importe com isso.

Voltaram para a sala e se acomodaram mais uma vez. Michael tirou algo do bolso.

- Tracy, preciso que me confirme uma coisa.

Ela olhou para ele, confusa.

- Tudo bem, o que é?

Entregou uma fotografia.

- Me diga se o conhece.

Tracy estudou por um momento, e Michael torceu para que ela dissesse não.

- Sim.

E encheu os pulmões antes de continuar:

- Esse é Adam Penn, ou Terry Terence como você o conhece. Eu disse que não estava enganada, Michael.

87 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 09:42

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 30

Desde que chegara a Nova York longe de sua mãe e o mundo novo se apresentando para si, nada fora tão fácil para Tracy. Mas claro, os anos haviam passado, e terminou por se acostumar à nova realidade. A realidade das noites. Tracy não era mais uma garotinha, se tornara numa mulher. E uma mulher muito bonita.

Sua tia, Lise - uma morena de aparência jovem e seios fartos -, era proprietária de um Clube de Strip na cidade que passava por maus tempos, e em poucos meses seria encerrado. Preocupante.

- Não sei mais o que fazer, Tracy. - Lamentava-se ela. - Se fechar, não teremos com o que sobreviver. Mas estamos com dívidas e... Oh, Deus!

Lise, contava com a ajuda de sua sócia e amiga, Sara. Loura e de sotaque sulino. Era sempre muito alegre e gentil com Tracy. Foi a quem mais lhe confortou depois que chegara a Nova York, assustada. Gostava muito dela.

E Tracy não negava, nunca se simpatizou com o local. Tinha repulsa em ver aquelas mulheres dançando para homens desconhecidos, asquerosos e bêbados. Mas sabia que sua tia se dedicara a vida nele.

Foi então que surgiu Kenny Nolan, um anjo que viera atender as preces de sua tia. Passou a frequentar o local, e sabendo do que viria a acontecer, tornou-se sócio majoritário. Investiu uma boa quantia.

- É ótimo fazer negócios com o senhor. – Dissera Lise após Kenny assinar o contrato.

E então era tudo de Kenny. Podia fazer o que bem entendesse, e fez. Tracy olhava de longe, ele saía quase todas as noites com as mulheres do local, chamava amigos, e esbanjava grana, bebidas. Ela se lembrara que certa vez lera num jornal local que Kenny Nolan era casado com Claire Merrivalle, a socialite mais conhecida da cidade. O pai dela, Godofredo Merrivalle, era conhecido como o homem dos negócios, conseguia transformar alguns poucos dólares em milhares. Mas todos sabiam, seus negócios eram obscuros, se alguém pulasse fora, dias mais tarde seria misteriosamente encontrado morto. E Tracy se perguntava o que levava alguém a fazer algum negócio com ele.

Completando 24 anos, nunca deixou se aproximarem de si. Tracy trabalhava como garçonete, servia as mesas e às vezes era alvo de cantadas nojentas. Alguns aproveitavam de sua aproximação e tentavam lhe tocar de alguma forma, e Tracy se esquivava, amedrontada. Jovem e bonita era inevitável homens não tentarem a levar para cama. Tinha pavor de imaginar aquelas mãos lhe tocaram de alguma forma, pois era como relembrar as mãos de Adam Penn querendo matá-la. Não gostava deles, eram todos iguais. Queriam apenas enganá-la e depois largá-la no mundo como ocorrera com sua mãe. Culpava Adam por tudo isso, culpava-o por estar ali, por ouvir aquelas coisas, por estar servindo mesas num lugar como aquele. Culpava-o por ela nunca mais tornar a ver Diana.

Mas seu conceito sobre homens mudaria após conhecer Kenny Nolan e se apaixonar.

Era para ser mais uma noite comum. Tracy terminara de vestir seu uniforme e se preparava para servir as mesas quando uma das moças se dirigiu a ela:

- Ken quer que você sirva a mesa dele hoje.

Deve ter sido impressão, mas Tracy sentiu uma pontada áspera na voz dela. Não se importou. E detrás do balcão moveu os olhos para onde ele estava. Surpreendentemente não havia nenhuma mulher. Ele estava só, apenas analisando a movimentação. Aguardando por Tracy.

- O que gostaria de pedir?

Tracy postou-se frente a ele com um bloquinho e caneta em mãos. Seus cabelos castanhos serpenteando por seus ombros. Kenny olhou-a de baixo acima, molhou os lábios, sugestivo. E então disse:

- Certo. Que tal começarmos com um Martini?

Começou com um Martini, depois com olhares furtivos. Fazia preferência de Tracy servir-lhe a mesa. Queria tocá-la de alguma forma quando servia algo, tentava tocar sua mão, de leve, só para sentir a textura da pele. Sabia que se tratava de uma garota tímida, e tinha de ir devagar. Tentava sentir o perfume do cabelo quando ela se abaixava para limpar qualquer coisa que Kenny tenha deixado cair de propósito. Mas Tracy se esquivava, não gostava disso, não queria Kenny Nolan, não queria ser mais uma e ele era um homem casado. Tracy se irritava com isso. Terminava de servi-lo e voltava para o balcão com a sensação que ele lhe observava por debaixo da roupa. Era constrangedor. Comentara com sua tia:

- Ele exige minha presença; sei que ele quer algo a mais.

- Então dê a ele, querida.

Tracy ficara incrédula.

- Mas é claro que não! Não posso fazer isso!

Lise permanecera emudecida.

- Não quero mais servi-lo. Arrume outra garota para ele. Há muitas aqui.

Foi então que sua tia franzira o rosto.

- Se ainda não percebeu, é ele quem mantém esse lugar. Que paga o seu salário e de todas nós, meu bem. Deve fazer o que ele quiser ou ir embora. É assim que funciona.

Mas Tracy não poderia ir embora. Precisava do dinheiro. Teria de suportá-lo até que pudesse arrumar outra coisa.

Droga!

Tracy estava enxugando uns copos quando sentiu um corpo atrás de si. Pensou ser Sara que vinha lhe ajudar e se virou com um sorriso.

- Sr. Nolan?

Seu sorriso esvaneceu.

- Vim ver como estava.

Tracy pareceu desconcertada.

- Me... ver?

Ele deu um passo à frente quando ela recuou.

- Sim.

Seus fios dourados sobre a testa. Os olhos cintilantes. Encantador.

- Não a vi mais no balcão e em lugar algum.

Fazia algumas semanas desde que Tracy resolvera trabalhar na cozinha para livrar-se dele. Ela não soube o que dizer.

- Eu estou... muito bem. – Respirou fundo, adquirindo forças. - É, estou bem.

Tracy descobriu-se nervosa. As mãos tremelicavam sobre o copo, e Kenny se deu conta disso. Pegou-lhe o copo. Suas mãos em contato com as mãos de Tracy. Sua pele macia.

- Vamos deixar isso aqui, sim?

E ele virou a cabeça para ela com um sorriso esboçado nos lábios.

- Senhor, não deveria estar aqui. Venha, eu o levo de volta para...

Kenny a estava fitando. Faltou-lhe voz por um instante.

- Senhor...

Kenny consultou seu relógio de pulso. Arqueou as sobrancelhas e depois olhou para Tracy.

- Eu tenho de ir.

E se dirigiu até a saída. Virou-se. Seu olhar invadindo o de Tracy.

- Bom saber que está bem, Tracy. – Enfatizou- o nome. Desapareceu, deixando um rastro de perfume francês pairando no ar.

Outro dia, Tracy estava saindo de seu expediente. Era no alto da madrugada, e ela voltava para casa, uns 20 minutos caminhando, quando um automóvel parou rente a si. Tracy congelou. Mas de alguma forma se acalmou quando reconheceu a face que se projetava para perto da janela quando o vidro abaixou.

- Olá, Tracy.

Kenny.

- Está tarde. Deve ser perigoso uma moça como você andar por essas horas desacompanhada.

Uma moça como você.

Tracy começara a imaginar o que ele lhe proporia.

- Posso te levar se quiser.

Não havia o que pensar. Não entraria naquele carro ao lado de Kenny Nolan. Não confiava nele.

- Agradeço, mas não é necessário. São poucos minutos até meu apartamento. Posso ir só.

Ela continuou seu trajeto com Kenny acompanhando-a na mesma velocidade dentro do automóvel, olhando-a.

- Ora, por quê? Vamos, são só alguns minutos. Será bem mais rápido.

Tracy parou, e Kenny também. Ela se virou. Já estava farta dele e de suas tentativas frustradas de se aproximar de si. Dois meses aturando Kenny Nolan era demais para sua sanidade. Não passava de um galanteador barato e chato.

- Sr. Nolan, entenda, eu...

Tracy ouviu a porta destravar e Kenny abrir. Ele saiu, parando frente a si. Alto, louro, atlético, poderoso, bonito. Fitou Tracy, e ela sentiu-se desconfortável com isso.

- Não me chame de senhor, isso é tão antiquado. – E ele sorriu, exibindo seus dentes perfeitos. – Me chame de Kenny e deixarei que vá em paz.

O acordo era bom.

- Certo, Kenny. Agora se me der licença, eu preciso ir.

E Tracy deu uns três passos até que ele a chamasse mais uma vez.

- Por que me evita?

Seria mesmo preciso responder?

- Eu o chamei de Kenny, disse que me deixaria ir.

Ele foi até ela, sedutor.

- Ora, Tracy...

- Tenho um dia cheio amanhã.

- O que posso fazer para que você aceite sair comigo? - Inquiriu, pouco se importando com o que Tracy falara anteriormente.

Ela pensou não ter ouvido certo.

- Disse sair, é isso?

Ele assentiu, voltando a encostar-se no automóvel.

- Desculpe. Mas não posso. Não sou como aquelas garotas.

Continuou a andar, afastando-se cada vez mais de Kenny. Ele falou, de longe.

- Nunca faria um pedido desses para alguma daquelas garotas. Você é diferente, por isso faço a você.

Ele era bom de lábia. Tracy parou, olhou para ele. As pernas cruzadas, a lateral direita do corpo apoiada no carro, uma das mãos dentro do bolso da calça e a outra sobre os cabelos, ajeitando a franja.

Por Deus, ele é casado. Como pode fazer isso?

- Não, obrigada.

Mas Kenny não desistiria. Falou com Lise sobre Tracy:

- Qual é o problema de sua sobrinha?

- O que está querendo dizer?

- Ela faz de tudo para me evitar. Não consigo me aproximar dela.

Lise deu uma tragada em seu cigarro e apoiou-se no balcão.

- Ora, Ken, olhe o tanto de garotas de temos aqui, e todas querem você. Por que se preocupar com Tracy?

Então Kenny franzira o rosto.

- Porque ela é diferente, e eu a quero.

- Não será tão fácil, Tracy tem pavor a homens.

Kenny abriu a boca.

- O quê? Está tentando me dizer que ela é...

Lise soltou uma risadinha.

- Não. Você entendeu errado. Quero dizer que ela tem um problema quanto a isso. Quando criança ela passou por uma experiência nada agradável.

- Ah.

- Mas se ainda quiser tentar...

Ele queria, e terminara de ter uma brilhante idéia. Um sorriso trespassou seus lábios.

- Conte-me tudo sobre Tracy.



Era mais uma noite que Tracy encerrava seu expediente. Ela estava tentando se desfazer do avental. O nó atrás do pescoço estava difícil demais.

- Deixe-me ajudá-la.

Kenny, de novo.

- Não, eu consigo sozinha.

Mas foi tarde. As mãos dele já estavam em seu avental, tocando em sua nuca, macias, lisas. Ela podia sentir o calor do corpo dele entrar em contato com o seu. Ouvir a respiração dele, calma. O nó foi desfeito e ele a ajudou a remover o avental.

- Viu?- Ele estava sorrindo. - Foi rápido.

E Tracy sorriu de volta, débil. Começou a recolher suas coisas enquanto sentia os olhos de Kenny sobre si.

- Obrigada. - E olhou para ele, desconcertada. – Estou com um pouco de pressa. Se me der licença...

Mas ela se surpreenderia.

- Não. Eu não lhe dou licença.

Hã?

Tracy se virou.

- O que disse?

- Não lhe dou licença, Tracy.

Ele foi até ela. Brincou com os dedos nas pontas de seus cabelos. Olhou-a. Então disse:

- Será pode me conceder uns minutos, Tracy?

Ela apertou os lábios.

- Por favor.

Kenny se sentou num dos bancos rente ao balcão. A expressão triste.

- Sabe, eu preciso desabafar. Há uma coisa aqui dentro que me machuca muito. E nunca pude falar com ninguém sobre isso. – Sua voz tomou uma entonação embargada. – Ninguém entenderia.

Tracy deu um passo à frente.

- Mas senhor, será que não pode falar isso com outra pessoa? Eu não...

Ele levantou os olhos, calando-a.

- Você é a pessoa certa para isso, Tracy. Confio em você. Por favor, me deixe falar.

Tracy oscilou em ir embora e deixar que ele falasse. Mas a expressão dele fez com que seu coração esmorecesse. Não poderia deixar só um homem naquele estado. Então também se sentou, esperando que ele começasse a falar.

- Está bem, conte-me.

Kenny contou que nunca tivera uma família estável. Que passou sua infância e parte da adolescência sem saber o que era ter uma figura paterna ao seu lado. Contou que seu pai retornara no auge de sua adolescência, em seus 14-15 anos. Que sua mãe não admitia isso. Falou que depois descobrira que seu pai era um homem não confiável e que tramava contra ele e sua mãe. E sua mãe para manter-lhe a segurança enviou-o para um parente, e crescera sem saber o que houvera com ela. E fora assim a história trágica de Kenny Nolan.

Tracy estava com lágrimas nos olhos quando ele terminara de falar.

Ele sabe como é se sentir só. É assim que me sinto. Sua história é como a minha. Ele é como eu.

E ela levou uma mão no ombro dele, confortando-o. Mas Kenny sentindo a aproximação dela abraçou-a forte, deixando que falsas lágrimas inundassem seus olhos.

Foi fácil. Ela acreditou.

Deve ser por isso que ele age assim, quer enganar a dor. Quer encontrar um conforto.

Por um momento, Tracy não se sentiu mais só no mundo.

- Oh, Tracy. Desculpe-me por isso. É tudo muito difícil para mim.

Ela fitou-o, carinhosa.

- Não, por favor. Não se desculpe. Sei bem como é se sentir assim.

- Sabe é?

Ela assentira. E vendo os olhos dele marejados, pegou um lenço em sua bolsa e entregou-o.

- Oh, Deus! – Kenny consultara o relógio. – Já passa das 4 da manhã.

Tracy lhe sorrira com ternura.

- Não ligue para isso, eu posso ir agora.

Ela vestiu a bolsa no ombro mais uma vez. Kenny a segurou com delicadeza no braço, virando-a.

- Posso levá-la. Não é nenhum incomodo.

Tracy permaneceu em silêncio, pensando.

- Deixe-me, sim? É uma forma de me redimir por tudo isso.

- Não precisa disso, Sr. Nolan.

- Disse que me chamaria de Kenny.

Ele conseguira arrancar um simpático sorriso dela.

- Certo. Kenny.

- Vai me dizer sim?

Acho que não terá problema. É só uma carona.

Então Tracy olhara para ele.

- Vou te dizer sim.

Kenny sorrira.

Ela é minha. Somente minha.

E seria o início de seu fim.

Coincidência ou não, encontraram-se no Central Park certo dia. Fazia tempo desde que Tracy estivera lá pela última vez e resolvera tirar um dia para si, junto à natureza e oculta entre as pessoas. Nada poderia ser melhor, era o seu dia de folga.

Estava sentada na grama, o sol fraco da manhã colorindo-lhe o rosto, com as pernas cruzadas e um livro aberto sobre elas quando Kenny aproximou-se.

- Hum – ele lera o título do livro. – Shakespeare, Romeu e Julieta?

Tracy levantara o rosto para ele, erguendo uma mão até a altura das sobrancelhas impedindo de o sol lhe bater nos olhos. Observou ele se acomodar ao lado, e voltou-se a ele, sorrindo.

- Sim. É o meu preferido. Quem não gostaria de viver ao menos por um instante um amor como o deles?

Kenny apertou os lábios.

- Mas eles morrem.

Tracy sorrira.

- Para continuarem a viver o seu amor em outro plano, longe dos desentendimentos de suas famílias. Ora, você deve conhecer a história.

Kenny deitou-se na grama, cruzando as mãos por debaixo de sua cabeça, formando um travesseiro. Olhou de soslaio para Tracy, deslumbrante a luz do sol. A pele delicadamente ruborizada deixando mais vívidos seus olhos claros e mais marcantes seus lábios avermelhados.

- Na verdade, não a conheço muito. Você poderia me contar.

Ela rira, voltando a observar as pessoas no parque aproveitando uma manhã fresca de sábado.

- Você não gostaria de saber.

Kenny se apoiara nos cotovelos, virando seu corpo para ela.

- E por que não?

- Posso lhe emprestar o livro se quiser.

- Prefiro ouvir a história. Poderia me contar enquanto damos uma caminhada pelo parque. O que acha?

E ele se erguera, estendendo logo após uma mão para Tracy.

- Não sei se é uma boa idéia, Sr. Nolan.

Kenny arqueara uma sobrancelha, advertindo-a.

- Kenny. – Tracy se corrigira, mas então dissera: - Não me sinto confortável em chamá-lo assim. Não me parece certo.

- Ora, Tracy. Olhe para mim. Não acha que sou muito jovem para que me chamem de senhor? – Ele começou a rir.

- É, talvez. Mas...

- Esqueça isso. Venha, vamos dar uma volta. Estou louco para que me conte a história.

Ela hesitara, mas então lhe deu a mão.

- Está bem.

Depois, Kenny a levou para casa. Pararam frente ao apartamento dela. Tracy vasculhava a bolsa atrás de sua chave.

- Obrigada por ter me acompanhado. Desculpe por ter tomado seu tempo.

- É ótimo ficar com você, Tracy.

Ela parou por um instante para olhá-lo. Depois, como se voltasse de um transe, tornou a procurar a chave.

- Aqui está.

- A história de Romeu e Julieta realmente é maravilhosa. Gostaria de viver um amor como o deles.

Tracy sorrira-lhe, débil.

- É encantador mesmo.

Ela preparava-se para entrar. Olhou mais uma vez para Kenny.

- Desculpe não convidá-lo para entrar. Espero que entenda.

Kenny nada disse por um momento.

- Gostaria que pudéssemos nos falar mais vezes. Sinto-me bem depois que a vejo.

De alguma forma, Tracy passou a sentir o mesmo.

- Você me entende – ele se aproximou um pouco mais -, você é como eu. Sabe o que sinto.

Eu sei. Você também sabe o que sinto.

- Que tal darmos um passeio pela cidade hoje à noite? Poderemos jantar, conversar, nos distrair um pouco. É o seu dia de folga, não é?

Ela hesitou.

- É, é sim.

- O que me diz?

Tracy pensou.

- Melhor não. Sua esposa...

Kenny respondeu de imediato.

- Esqueça Claire. Vamos nos separar – Mentiu. – E que mal há num passeio entre amigos?

Ele sorriu. Tracy engolira em seco.

- Amigos?

- Não é o que somos, Tracy?

- Talvez – um murmúrio.

- Virei te buscar às sete. Não tem a opção de recusar meu pedido.

E ele se fora.

Sara surgira em seu apartamento na mesma tarde.

- Sei que está saindo com Kenny Nolan.

Tracy olhou assustada para ela.

- Mas é claro que não! Por Deus!

- Há semanas vocês andam conversando, se encontrando por “coincidência”. Tracy, ouça, ele não é o que você pensa.

Mas o que ela está dizendo? Kenny é só um homem à procura de conforto, de amor, alguém que o compreenda, assim como eu.

- Você não o conhece, Sara. Kenny é um homem bom. Ele quer ser meu amigo, está se separando da esposa, e não vejo problema em conversar com ele.

- Tracy, querida, você não entende...

Kenny conversara com Lise no mesmo dia:

- Ela está afim. Sei disso.

Lise sorrira.

- Como pode ter tanta certeza?

- Tracy vai sair comigo hoje à noite.

- Não sei por que ainda insiste nisso.

- É questão de honra, você não entenderia.

Ela rira.

- Claro que entendo. Faça o que quiser com ela. Só não me meta nisso.

Tracy quer um romance a Romeu e Julieta, e darei a ela. Só que nessa versão Romeu não ama Julieta.



Jantaram no Buffet e caminharam pela cidade. Tracy quase se esquecera que morava em Manhattan, e quão cheia de beleza ela era. Ainda havia o lado que conhecera quando criança, das mulheres, das bebidas, dos homens, mas ao lado de Kenny, ela só podia ver o outro, a do glamour, da simplicidade, da beleza. Ele era uma companhia maravilhosa. A noite foi incrível, e ela disse isso a ele quando a levou para a casa:

- Foi maravilhoso. Há tempos não me divertia tanto. Nem sei como posso lhe agradecer.

Mas Kenny se desencostara da parede e se aproximou dela. Levou uma de suas mãos até a face de Tracy e ergueu-lhe o rosto. Fitou-a com seus olhos esmeralda. Tracy podia sentir seus batimentos desregularem.

- Sei como pode me agradecer.

E ele abaixou seu rosto para encostar seus lábios nos dela. Foi um toque, mas repleto de significado. Tracy abriu os olhos, e o viu bem próximo de si. Deu um passo atrás.

- Isso não é certo. Não posso.

- Estou apaixonado, Tracy. Me apaixonei por você. É a verdade. Não sei se posso controlar isso.

Os olhos de Tracy foram tomados por um brilho incomum. Ninguém nunca lhe dissera isso. Nunca lhe fora tão sincero.

Oh, Deus, o que anda havendo comigo?

E foi quando descobriu que suas mãos o puxavam para si, e que seus lábios se moviam com gana contra os dele.

Estava apaixonada por Kenny Nolan.



- Kenny, o que anda havendo?

Algumas semanas haviam se passado, talvez dois ou três meses, e Claire observava Kenny sair envolto numa toalha do banheiro de sua suíte. Moravam num apartamento na Quinta Avenida, privilegiados por uma vista espetacularmente sufocante do badalado cartão postal de Manhattan.

- Não estou entendendo aonde quer chegar, Claire, querida.

- Ora, Kenny, você anda saindo todas as noites e só chega de manhã. Não tente me enganar.

E ela avançou até ele.

- Pode me dizer. Está saindo com outra? Com umazinha. Uma vagabunda qualquer.

Claire derramou-se numa poltrona. Pegou uma garrafa de vinho pela metade e levou a boca. Fitou Kenny. Sua expressão sóbria.

- Claire, você está bebendo demais. Poderia dar um tempo.

Tentou tomar a garrafa, mas Claire o impediu.

- Não fuja do assunto, Kenny Nolan.

Ela só pronunciava o nome completo quanto estava muito nervosa.

- Você está bêbada. Não vou discutir. Sabe que ando trabalhando muito. Por você.

- Oh, é mesmo? – Havia desdenho em sua voz.

Kenny assentiu, fazendo seus fios louros sacudirem sobre a testa. Claire se levantou, cambaleando, e se dirigiu a Kenny. Apontou o dedo indicador em seu peito e ameaçou, quase sussurrando:

- Está mentindo. Se estivesse mesmo trabalhando para mim, eu seria uma cantora reconhecida. Você está me traindo, sei disso. E vou descobrir.

E Kenny podia sentir seu bafo contra seu rosto. Quando Claire se afastou, totalmente ébria, ele foi até o armário e pegou uma caixa de sapato onde havia várias pulseiras para Vips de Clubes, e em principal do qual ele era sócio. Enfiou mais no fundo, atrás das roupas, e sorriu.

Claire nunca saberá de nada.

E ela não poderia saber, até o dia de estarem atrasados para uma festa e Kenny não encontrar seu suéter preferido. Claire estava na sala, batendo pé.

- Ande, Kenny! Não quero chegar tarde à festa de aniversário de papai. Ele não gostará nada disso. E ele já não anda gostando de muita coisa.

Godofredo Merrivalle cortara boa parte da mesada de Claire. E ela não gostaria de dar-lhe motivos para mais. Logo depois de casar, seu pai lhe dissera para pedir divórcio, acusando Kenny de ser um preguiçoso, mulherengo e imbecil. E havia momentos em que ela realmente pensava nas palavras de seu pai.

- Acalme-se, Claire. Já estou indo.

Claire foi até o quarto, e observou Kenny vasculhar o guarda-roupa.

- Por Deus, pegue qualquer coisa!

Como se Kenny fosse louco. Godofredo Merrivalle não era somente um homem de negócios, exigia que seus convidados surgissem em suas comemorações vestidos elegantemente, com classe, e o suéter importado da suíça era perfeito à ocasião.

E Godofredo Merrivalle não era muito simpático a Kenny e seu casamento com Claire.

Kenny se virou para Claire.

- Talvez esteja em seu closed. Essas empregadas de hoje são tão incompetentes.

- Está bem. Mas seja rápido.

Ele demorou.

- Droga, vamos nos atrasar, Kenny!

Mas ele não ouviu.

Vou encontrar esse maldito suéter de uma vez.

E ela foi ao armário dele; abriu as gavetas, tirou uns casacos, remexeu em umas roupas, até suas mãos encontrarem uma caixa atrás de algumas camisas.

- Mas o que...? Esse idiota está se aproveitando...

Claire olhou para a porta, Kenny ainda devia estar em seu closed. Pegou a caixa e levou para a cama, despejou tudo o que havia dentro. Seu coração acelerou. Sabia o que era. Depois, voltou-se a porta mais uma vez. Podia ouvir Kenny se aproximar. Guardou tudo e enfiou de volta no armário. Ele apareceu na porta com o tal suéter em mãos, sorrindo.

- Eu não disse? Essas empregadas são estúpidas!

Claire lhe sorriu e foi até ele, beijando-o no alto da testa.

- Que ótimo que encontrou, meu bem. Agora vamos, sim?

Vou investigar, e quando descobrir, você vai me pagar, Kenny. Ninguém trai um Merrivalle. Ninguém.

Kenny fora longe demais. Longe demais.

Era de manhã, e Kenny passara a noite com Tracy. Ela lhe trazia um café na cama, satisfeita por ele estar ali. Satisfeita porque ele a completava, a compreendia, e porque o amava. Quando ele se sentou, Claire entregou a bandeja com suco, torradas e mel. Observando-o comer, indagou, triste:

- Kenny, querido, quando sairá o seu divórcio com Claire? Isso está demorando muito.

E ele lhe acariciara o queixo.

- Sabe como esse processo demora. Esses advogados enrolam para depois nos cobrarem mais pelo serviço. Mas eu a amo, e já disse que vamos ser felizes; somente você e eu.

- Está enganado, Kenny.

Tracy estava sorrindo.

- O que quer dizer, querida?

E então ela o envolveu num forte abraço, dizendo cheia de vontade:

- Estou grávida, Kenny! Eu estou grávida!

Afastou-se dele, fitando-o.

- Isso não é maravilhoso?

Kenny estava sem expressão. Sentiu seus batimentos aumentarem rápido demais. Um pedaço de torrada parou em sua garganta e ele tossiu.

- Kenny?

E ele continuava a tossir.

- Pegue... pegue um copo d’água.

Tracy correu a cozinha e voltou com a água. Depois de uns minutos, Kenny estava levemente ruborizado, mas bem. Sorriu, débil.

- Sente-se melhor, Kenny?

- Eu acho... estou melhor.

- Agora diga, não é uma ótima notícia?

Não.

Tracy lhe estava sorrindo, deslumbrada com a idéia de formar uma família ao lado de Kenny Nolan. O amava tanto.

Mas Kenny não teria esse filho, e Tracy também não.



- Então é aqui que a vagabunda trabalha? Eu devia saber. Kenny anda me traindo com nosso dinheiro.

Claire estava no Clube averiguando o local. Mulheres dançando, homens nas mesas sendo servidos por magníficas garçonetes. Ela foi até o balcão, pediu uma bebida, e continuou observando a movimentação.

Kenny não demorará muito. Sei disso.

Ficava a procura de uma cabeleira loura, familiar. Nada. Passaram-se 10, 15, 30 minutos, 1 hora, e Kenny não aparecia.

Talvez ele não venha hoje.

E Claire resolvera voltar outra noite.

88 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 09:42

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
O que ela não sabia era que Kenny se encontrava com Tracy. Tracy insistira para que comemorassem a notícia de um filho e que pensassem num nome para ele.

Kenny trouxera um bom vinho para a ocasião.

- Kenny, meu bem, estou grávida. Não posso beber.

Mas ele lhe sorrira.

- Não se preocupe. É só um pouco.

- O que você acha de Kevin se for menino? Talvez Elisabeth se for garota.

- Eu acho todos os nomes maravilhosos, querida.

- Ah, você tem que me ajudar a escolher!

- E vou... e vou...

Enquanto pegava umas taças e abria a garrafa, olhou por cima do ombro para se certificar que Tracy o estava observando.

Não, não está.

Tracy estava concentrada em decidir qual nome dar ao seu futuro filho morto. Kenny deslizou uma mão para o bolso de sua calça e tirou de lá um pequeno frasco. Despejou o pó na bebida e esperou uns segundos até que ela desaparecesse por completo. Voltou-se a Tracy.

- Eu gostei de Kevin.

Tracy lhe sorrira, pegando a taça.

- Quem sabe Kenny? Acho que ele ficaria feliz em herdar o nome do pai.

- Quem sabe...

E Tracy começara a beber.

- Talvez Allie. Não é bonito?

- Oh, sim.

- Também estive pensando em... – sua visão começou a embaçar. Ela sacudiu a cabeça. – em... – a sala começou a rodar, seu peito a se comprimir – Kenny, eu acho que...

- O que disse, Tracy?

Algo começou a acontecer dentro de si. Uma imensa dor a invadiu, ela derramou a taça.

- Kenny, eu... me ajude, não me sinto...

Começou a gritar; a dor penetrando em suas veias, em seus nervos, em seu útero, em seu filho. Estava sem ar. Seus olhos fecharam, ou era sua visão que se tornara escura? Tracy não soube diferenciar, mas depois de uns segundos, não sentiu mais nada.



- Peguem o desfibrilador, ela está tendo uma parada! – Berrou o doutor.

Um enfermeiro auxiliar ligou o aparelho e dez segundos após entregou.

O corpo de Tracy saltou no ar e depois de instantes caiu, inerte.

- Mais uma vez!

Os botões giraram novamente, e depois de uns segundos, o mesmo: o peito encheu e esvaziou. O corpo imóvel sobre a maca. As linhas de vida se comprimindo. Início de uma assistolia.

- Vamos perdê-la. – Falou alguém.

- Injetem epinefrina, já!



Tracy acordou dia seguinte com sua tia, Lise, e Sara ao lado da cama, com uma tremenda ânsia de vômito.

- O que houve?

Ela fizera menção de se levantar, mas desistiu quando sua cabeça ardeu.

- Não se esforce, meu bem. – Dissera Sara, carinhosa.

E foi então que Tracy se dera conta.

- Meu filho. Meu filho, me digam, o que...

- Como?

Ela não contara para mais ninguém. E não podia, pois também Kenny não permitira que ela dissesse que estavam juntos. E ele lhe prometera:

- Conteremos tudo depois de meu divórcio. Não quero que entendam errado.

- Oh, sim, Kenny. Claro.



- Lamento. – Falara o médico depois que Lise e Sara saíram. Tracy chorou. Chorou por ela e por seu filho.

Tracy dera mais uma olhada no quarto. Kenny não estava lá.

Por quê?, ela se perguntava. O que aconteceu?

Não gostava de duvidar de Kenny, mas dessa vez... Faria somente uma pergunta, e então essa maldita duvida saíra de sua mente.

Encontrara-se com ele no Clube dois dias depois. Puxara-o para um canto e falou:

- Kenny, meu bem, você não me procurou. Fiquei preocupada.

- Ora, Tracy, tive uma semana cheia. Desculpe.

- Sabe que estive no hospital, não sabe?

- Claro. Fui eu quem chamou a emergência. Fiquei tão preocupado. Não sei o que houve, mas você começou a ter uma convulsão e...

Tracy encheu os pulmões. O momento crucial.

- O que havia naquela bebida, Kenny?

Ele estacou por um segundo, como se estivesse planejando o que dizer.

- Não estou entendendo, Tracy.

Então ela soube, e o fitou.

- Perdi o nosso filho.

Kenny não disse palavra. Ficou tão feliz. E abraçou-a passando a sensação que buscava algum conforto pela notícia.

- Vai ficar tudo bem, Tracy. Vamos ficar bem.

Sorriu pelas costas dela.

Acaba aqui.

Está só começando. Vou descobrir o que houve.

As narinas de Tracy tiritavam de tamanha fúria. Tinha certeza que ele a havia enganado. Que havia matado seu filho.

Alguém a parou no caminho do balcão. Uma mulher de saltos, bem vestida, cheia de penduricalhos no pescoço.

- Então é você.

- O quê?

Arrastou-a para dentro de um banheiro e trancara a porta.

- Claire Nolan, meu bem, e qual a sua graça?

Faltou-lhe voz por um instante. Mas indagou por fim, a voz alterada:

- Mas o que pretende aqui?

Claire irritantemente sorriu.

- Não se altere, querida. Só vim para esclarecer umas coisas – pausa. - Anda saindo com Kenny, não é? Vi quando conversaram.

Tracy engolira em seco.

- Vão se separar. Foi o que ele me assegurou.

Bastou a última palavra para que Claire risse alto e satisfeita.

- É o que ele diz a todas?

- Foi somente para isso que veio? Então me dê licença que tenho muito a fazer.

E caminhou em direção a porta. Experimentou a maçaneta, e descobriu trancada. Olhou para Claire exibindo a chave nas pontas dos dedos com um sorriso.

- Não vai a lugar algum, meu bem. Temos muito a falar ainda.



- Claire Nolan esteve aqui?

Sara parecia incrédula.

- Sim, esteve.

- E o que ela queria?





Tracy fitou-a, buscando uma forma mais maleável de dizer, não encontrou.

- Matar Kenny. E eu vou ajudá-la nisso.

Claire descobrira um frasco nas roupas de Kenny na noite em que Tracy fora para o hospital. Passou a revistar as coisas dele depois que começara a desconfiar que ele a traía. Pesquisara sobre a substância e descobrira que causava abortos e nos piores casos, até morte. Mostrara a Tracy depois que ela dissera que esperava um filho dele.

- Veja isso – e entregou a ela o frasco. - Se misturado a qualquer bebida, não há como saber que ingeriu essa coisa.

Ela começou a rir.

- Até que ele é esperto. Mas não tanto quanto eu.

E Kenny se mostrara estranho quando Tracy dissera que estava grávida. Ela pensou que fosse somente impressão ou que talvez ele tivesse ficado surpreso com a notícia. Mas depois disso, não soube mais o que pensar. Ela se recusava a acreditar. A hipótese era aterradora.

- Não. Kenny não faria isso.

- Bem vejo que não o conhece.

- Ele disse que me amava.

- Não seja idiota, meu bem. Kenny não ama ninguém a não ser ele mesmo. Devia saber disso. – Claire encostou-se na beira da pia, passando os olhos pelo pequeno e sujo banheiro. Continuou a falar: - Sempre soube que não passava de um galanteador barato e ambicioso, mas me recusava a crer. Ele sempre me traiu – ela fez uma pausa reflexiva -, eu sei, mas fingia que não. – Fitou Tracy - Sabe, eu até gosto dele, se parece comigo, tem porte, boa aparência. Mas é um filho da mãe. Quero me vingar. Quero vê-lo morto. Ninguém engana um Merrivalle.

E foi então que ela fez uma tensa e demorada pausa.

- E você vai me ajudar nisso.



Tracy encontrara-se com Kenny.

- Kenny, acha que poderemos ter um filho assim que nos casarmos?

Ele lhe sorrira.

- Mas é claro, querida.

Mentira.

- Vamos ser felizes, sabe disso.

Outra mentira.

- Eu te amo.

E ele assinara sua sentença de morte. Tracy ligara para Claire:

- Vamos nos encontrar essa noite. Temos de discutir o plano.



Sara fora até Tracy.

- Não pode fazer isso.

- Mas é claro que posso.

- Está arriscando sua vida.

Tracy soltou uma risada.

- Vida?

Ela não sabia o que era vida desde que perdera Diana. Não tinha nada a perder com isso. Vingaria a si e sua mãe com a morte de Kenny. Eram todos iguais.

- Conhece alguém que possa conseguir identidades falsas?

Sara lançou um olhar triste para Tracy.

- Não faça isso, querida. Por Deus!

- Deus se esqueceu de mim, Sara.

E ela abraçou-a.

- Eu a amo. Foi como uma mãe para mim por todos esses anos.

- Então esqueça essa idéia, por mim.

- Não posso fazer isso. Está decidido.

- É loucura.

Tracy não chamaria assim.

- É um acerto de contas.

Sara foi até o balcão, pegou uma caneta e um guardanapo. Anotou um endereço.

- Tome cuidado, Tracy.

Joey Strandy seria quem forneceria as identidades falsas. Magro, pele morena e uma aparência mal encarada. Tracy dissera:

- Preciso de uma identidade e também de uma arma.

- Está certo. Mas isso não é um vale-brinde. Vai custar caro.

Dinheiro não era problema. Claire pagaria por tudo.

- Não se preocupe. Pagarei bem.

- Esteja aqui amanhã às três.

Às três do dia seguinte, Tracy aguardava por Joey no mesmo lugar. E ele estava atrasado. Tracy começara a se preocupar. Dois minutos depois ele surgira com um pacote. Entregou a ela e Tracy tirou um envelope recheado de notas de cem dólares debaixo da camisa.

Enquanto se afastava, ele perguntou:

- Sabe usar isso?

Tracy olhou para o pacote.

- A arma – especificara.

Ela pensou.

- Não.

- Cinquenta dólares e saberá como.

- Vinte.

- Trinta.

E estava feito.

Mais tarde ela se encontrara com Claire.

- Tenho mais alguém para nos ajudar.

Claire prendera a respiração.

- Mas o quê?

Era inacreditável que aquela imbecil dissera tudo para qualquer um. Poderia por tudo a perder. Tracy apresentou-a a Joey Strandy.

Dono de uma mente invejável estudou o plano, analisou os detalhes e todo o resto. Revisou tudo e depois de duas semanas deu a conclusão final:

- Quando começamos?

Uma boa grana estava em jogo. Claire pagaria Joey e Tracy pelo serviço; e Tracy ainda sairia do país caso a polícia desconfiasse de algo. Seria difícil descobrir seu paradeiro no Rio de Janeiro. E Claire só precisaria fazer seu papel de viúva inconsolável por algumas semanas. Seria perfeito.

Mas advertira:

- Se falhar, esqueçam a grana e todo o resto. Cancelarei a passagem de Tracy e vocês que se virem com a polícia. Não sairei perdendo sozinha. Kenny precisa estar morto, entenderam bem? Morto.

Mas Joey estava sentindo, Tracy não parecia tão confiante. Falara com ela outro dia:

- Não quer fazer isso, não é mesmo?

Tracy lhe erguera os olhos.

- Mas é claro que sim!

- Não quer, não. Posso ver em você. Está com medo.

Não dava para negar a si mesma. Tinha medo, receava que não pudesse fazê-lo. Mas arriscaria.

- Ele merece o que terá, Joey. Não é um inocente que estará na mira de minha arma. É Kenny Nolan.

- Você ainda gosta dele.

Ela o amava.

Vou vingar a mim e Diana.

- Ele pagará por tudo. Somente isso.

Começou no dia 12 de maio. Tracy passou a trabalhar como funcionária de limpeza no Edifício Rockfeller como Alexia Saymors. Claire lhe conseguira o emprego.

Vestida de avental cinza, peruca castanho escuro e sem maquiagem, Kenny nunca a reconheceria. E além do mais, nem se daria ao trabalho de olhar para os empregados do local. Descobriu – com a ajuda de Claire - as horas em que ele saía, voltava para o apartamento e o necessário. Foram somente alguns dias para obter todas as informações precisas. Foi fácil. Depois, marcou um encontro com Joey e Claire:

- Está tudo anotado. Kenny costuma sair meio dia do apartamento, retorna às quatro e depois volta a sair às oito - é quando está no Clube – e então volta às três ou quatro da madrugada. Nos domingos costuma sair somente à noite, assim como nos sábados. Podemos agir em algum desses dias.

Claire pensou.

- Não. Finais de semana não dariam certo. É o dia em que o Edifício tem mais movimentação. Famílias vão visitar seus parentes. E papai costuma ir lá também, principalmente nos sábados.

- Que tal numa segunda? – Sugeriu Joey.

- Pode ser – pensava Tracy. - As pessoas saem para o trabalho e a cidade parece um verdadeiro enxame de pessoas. Haverá barulho com os carros na avenida e todo resto. Mas teremos de agir cedo, Kenny sai ao meio dia.

- Não seria muito suspeito? – Perguntou Claire.

- Talvez não. É tudo ou nada.



Um dia antes, Kenny Nolan surgiu em seu apartamento com uma garrafa de bebida em mãos. Tracy abriu a porta, e ele abraçou-a.

- Kenny, o que faz aqui?

Ele esboçou um sorriso.

- Não reclama que mal a vejo? Pois bem, aqui estou. E morrendo de saudades.

Agarrou Tracy com volúpia, querendo beijá-la. Ela queria empurrá-lo. Tinha tanta raiva. Mas teve de se conter para não levantar suspeitas. Beijou-o na mesma intensidade.

Se tudo isso fosse verdade...

Não podia negar que Kenny lhe proporcionara um conto de fadas por meses. Um verdadeiro Romeu e Julieta. Ele demonstrava amá-la tanto. Parecia tão real. Mas somente Romeu morreria nessa versão. Tracy fitou-o por um momento.

- Tracy, aconteceu alguma coisa?

Até a sua preocupação era falsa.

- Hem, meu amor?

Amor. Era quase uma piada. Ele estaria morto dia seguinte.

- Kenny, abra o vinho para nós, sim?

- Claro.

Vou deixá-lo saborear uma boa bebida pela última vez. Quanta raiva corria em suas veias. Ele retornara com duas taças. Deu um gole na sua e depois levou seus lábios até o colo de Tracy, beijando.

- Oh, Kenny, o que há com você?

- Estou cheio de saudades. Quero você, Tracy.

Ela também queria, mas não faria isso.

- Kenny, por favor, hoje... não.

Era tão difícil resistir. Tentador. Delicioso. Kenny Nolan a desejava. Tracy o amava. Kenny derramou vinho em sua roupa. Tracy apertou sua mão e afastou-o com a taça. O vidro quebrou com a pressão. Kenny gemeu.

- Que droga, Tracy!

A mão dele sangrava. Ele se levantou com alguns pingos escorrendo para o chão.

- Deixe-me ver, Kenny.

- Ah, esqueça, eu vou embora. Você está insuportável essa noite.

Ótimo. Amanhã nos veremos... pela última vez.



Claire sairá do apartamento às 10:00m. Terei meia hora para agir, o zelador chega às 10:30m. Descerei as escadas de emergência. O carro estará a 200 metros dali. Precisarei ser rápida, Tracy estava suando ao repassar o plano e olhar para o ponteiro do relógio no alto da parede da recepção do Edifício Rockfeller. Deixarei o automóvel no local combinado e pegarei um táxi até o aeroporto. Joey estará lá com as passagens e documentos.

Uma gota de suor escorreu por dentro de sua roupa. 9:59m. Ela ajeitou o pequeno revólver em sua perna preso por uma liga elástica. 10:00m. As portas do elevador se afastaram e Claire Nolan passou com uma bolsa Louis Vuitton no ombro e seus tocs tocs tensos de seus saltos Louboutin, formando um rastro quase palpável de perfume europeu. Deixou para trás uma chave no balcão da recepção.

É agora. 10:01m.

Tracy se aproximou da recepcionista:

- Será que eu poderia...?

A recepcionista abaixara seus óculos e a fitara com desdenho.

- Está bem. Mas seja rápida. Vou pegar um café, quando voltar, não quero que esteja aí.

Não vou estar. Tenha certeza.

Havia uma câmera bem acima de si, observando-a, estudando-a. Tracy pegou um pano e passou pela superfície do balcão, depois, embaixo, e foi então que uma de suas mãos deslizou para o quadro de chaves. Olhou de soslaio para se certificar de que pegava a chave certa. Voltou-se para o relógio na parede. Exatos dois minutos. Tracy guardou tudo num carrinho de limpeza e arrastou-o para um canto. Mexeu nos bolsos. A valiosa chave estava ali. Subiu pelas escadas internas - havia câmeras no elevador. Mesmo disfarçada, não se daria o luxo de gravarem sua imagem.

Chegando ao apartamento, deslizou a mão até a chave e inseriu na porta. Abriu-a. Entrou deslumbrada com o espaço. Um magnífico sofá de couro legítimo dividia o espaço a uma mesinha de centro de madeira com a superfície de vidro. Um inestimável tapete artesanal persa forrava o assoalho. Os demais adornos, Tracy não pôde ver, o tempo era curto. Kenny estava no banho; ela soube por escutar o bater da água contra o azulejo. E ele terminara de despertar; o tecido sobre a cama ainda conservava o calor do corpo.

Escutou a ducha desligar, e Tracy se agachou ao lado da cama esperando que ele surgisse. Observou-o escolher uma camisa e vestir. Depois ajeitar seus cabelos e...

- Tracy? – Sua voz estava repleta de incredulidade e pavor.

A imagem dela estava refletida no imenso espelho do dormitório, com uma arma na mira da cabeça de Kenny. Suas mãos tremiam e seus olhos azeitonados nunca estiveram tão ameaçadores, suas pupilas tão dilatadas, tão repletas de raiva e... amor?

- Cale a boca.

Tracy estava nervosa, podia sentir seu coração bater depressa como se quisesse atravessar seu peito.

Kenny se virou, cauteloso, com as mãos para cima. Seus olhos fixando-se nos de Tracy.

- O que é isso, Tracy?

- Cale a boca!- Repetiu com ênfase, fazendo um tremendo esforço para manter a voz firme. Os olhos aos poucos se tornando marejados. As lágrimas se acumulando sobre eles, fazendo finas gotas deslizarem em seu rosto.

- Tracy...

Ela apertou o revólver, mirando com mais exatidão em Kenny.

- Dá para você calar essa boca, pelo amor de Deus?!

Eu te amo. Vou estar sempre contigo. Já disse, vamos ser felizes.

Ele não a amava. E Tracy sabia disso. Ele desaparecera desde o episódio do hospital. A noite passada de nada valia. Ele a tentara matar. Matara seu filho. O filho dele. Kenny não merecia viver. Não merecia... não merecia... não merecia...

Tenho de acabar logo com isso.

Mas não conseguia. Ele a estava fitando, amedrontado. Ela tinha o controle. Estava em suas mãos.

Deus, por que é tão difícil?

- Tracy...

- Disse para calar essa maldita boca! – E foi para lhe dar uma coronhada quando Kenny aproveitou-se e a conseguira conter. Usou seus braços para envolvê-la.

- Largue a arma.

- Não. – Um murmúrio.

Kenny podia sentir o cano em contato ao seu corpo; Tracy o apertava contra seu abdômen com toda a força. Seu pulso torcendo e parecendo quebrar com o ângulo espetacular que fazia para permanecer com o revólver em Kenny.

Ele pressionou mais o braço sobre o pescoço de Tracy, sufocando-a. Sua voz entrando pelos ouvidos dela, seu hálito, seu cheiro, seu calor.

- Largue a arma, Tracy.

Ela tentou gritar, mas não podia. Kenny a estava asfixiando. Ele começou a caminhar em direção a sala com ela se contorcendo em seus braços.

Atire, Tracy, atire! Por Diana, faça isso por ela!

Kenny apertou-a ainda mais. Tracy gemeu por entre os dentes com tamanha dor que sentia em seu pulso e pescoço. O ar não entrava em seus pulmões, e eles imploravam por isso. Gritavam dentro de si por oxigênio. Tracy estava perdendo a visão, a força...

- Solte a arma, Tracy. Vai ficar tudo bem.

Não, não vai.

Kenny apertou o revólver e começou a gritar:

- Solte, Tracy! Ande, solte esse maldito revólver!

O bafo dele chocando em sua pele, sua voz socando seus ouvidos.

Ela desmaiaria, podia sentir, e então poria tudo a perder. Tentou estufar o peito mais uma vez, queria ar, necessitava disso, morreria, e então com o resto de força deslizou o indicador no gatilho e... .

Foram uma, duas vezes.

Um, dois estampidos.

Um, dois gemidos.

Ar.

Tracy pode sentir os braços de Kenny se afrouxarem e escorregarem para trás de si. Ela caiu de joelhos sobre o tapete, puxando o máximo que podia o ar para dentro de seu corpo. Kenny cambaleava para trás, com uma das mãos pressionadas um pouco abaixo de seu abdômen. Tracy se virou, com o som de vidro se rompendo no chão. Kenny batera num dos vasos ao cair. O sangue vermelho e denso se acumulando em sua mão, se espalhando em sua roupa, formando uma poça abaixo dele.

Ela se levantara, ainda recuperando o ar, e postara-se sobre ele com a arma apontada à sua cabeça. Os olhos de Kenny implorando por piedade.

- Tracy, por favor...

- Eu te amei, Kenny.

E ela desviara o curso da bala apontando para onde estavam os cacos de vidro do vaso. Descontara toda sua raiva e angústia num terceiro tiro.

Kenny começou a chorar.

Um covarde.

Tracy enfiou a arma de volta à liga em sua perna e avançou para a porta. Olhou o corredor e controlando os passos para não correr, dirigiu-se as escadas de emergência. Descia dois degraus de vez, com toda a pressa. O ar parecia-lhe faltar com a pressão que seu coração fazia dentro de si.

Saída de funcionários.

Era para onde tinha de ir.



Kenny Nolan gemeu ao se erguer. Uma intensa dor parecia dilacerar seu abdômen e perna. Não conseguia movê-la. Tivera sorte de Tracy não lhe dar um terceiro e último tiro. Estava vivo, mas não por muito tempo com o tanto de sangue que jorrava de seu corpo. Precisava de ajuda. Arrastou-se até o telefone, discou um número. Ninguém na maldita recepção atendia. Ligou para Claire. Nada.

Droga!

Seria sacrificante, mas tinha de descer para obter ajuda. Como odiava Tracy por lhe proporcionar aquilo, como a odiava por cada pontada agonizante de dor e gota de seu precioso sangue que se perdia.



Tracy saíra do edifício e correra até seu carro. Arriscou alguns minutos para ver a horda se formar. Não demorou que policiais, curiosos e até emissoras de TV surgissem para dar seu ar da graça. Era Kenny Nolan quem residia ali, esposo de Claire Merrivalle, filha de Godofredo Merrivalle. Daria uma boa manchete, sem dúvidas.

Olhou por cima do ombro para ver se alguém a espreitava. Não há ninguém. Tudo fora espetacular.

Espetacular de certa forma, claro. Não foi bem como ela imaginava que seria. Foi difícil fazer aquilo, ferir Kenny. Mas ela sorriu ao se lembrar do quão covarde ele era. Não precisara vê-lo dar o último suspiro para ter certeza que morreria. Do jeito que sangrava feito um carneiro dilacerado não lhe daria mais que 20 minutos. Kenny já devia estar morto.

Mas não podia negar, estava dividida em sentimentos. Oscilava em ainda amá-lo e de ter vingado a si e sua mãe. Era confuso, mas não tinha tempo para isso. Precisava deixar o automóvel no local combinado e partir ao aeroporto.

Agora, toda uma vida a esperava pela frente. Maravilhosa... e fora do país. Entrou no carro e se desfez do uniforme e da peruca marrom, deixando seus belos fios ondulados pairar sobre os ombros; ligou a chave na ignição e esperou o motor aquecer.

- Seja bem-vinda a vida, Tracy Gummer.

Ajeitou o retrovisor e deu partida.



- Órra, órra, órra! Está atrasado, mister Franklis.

Era um gordo argentino radicalizado americano que reclamava. Tinha um bigode branco como algodão parecendo o Papai-Noel fora da época de Natal. O motoboy que contratara para sua floricultura há apenas uma semana, era um jovem de 17 anos, de pele com sardas e uma cabeleira ruiva alaranjada sobre o sol Nova Yorkino. Ele se desculpava:

- Desculpe, Sr. Gerard.

- Está bien, bien, bien. Agori ande! Levi’ esses begônias pari senhori Filliman, sin, sin?

- Claro.

- Agori, ande! Ande, ande, ande!

Enquanto o garoto se afastava em sua moto, o gordo resmungava com seu avental abaixo da barriga que sacudia:

- Viv’ atrasado, viv’ atrasado! Sant’ Senhori da Candelárria!



Tracy estava em um cruzamento, e o sinal fechara para si. Entrou em pânico.

Franklis tinha pressa. Precisava entregar as begônias a senhora Filliman ou seria despedido. Já podia até ouvir:

- Está despedido, mister Franklins. Pegui sus coisas e sum’ daqui! Depress’, depress’, depress’!

A voz de Gerard era como dois tambores em seus ouvidos. Insuportável.

Tivera sorte de o sinal estar para si no momento. Aquele cruzamento era péssimo de manhã. Mas chegaria a tempo na velha Filliman.



Esse maldito sinal não abre!

Precisava sair dali.

fd-se!

Tracy buzinou e bateu em alguns automóveis em sua frente. Xingaram, mas pelo menos abriram caminho. Tracy afundou o pé no acelerador no exato instante que um garoto sobre a moto avançava, com seus fios alaranjados escapando do capacete.

As begônias e outras flores saltaram pelos ares derramando-se sobre os veículos formando quase uma chuva de pétalas coloridas quando ele pressionou o freio e as solas de seus sapatos derraparam no asfalto.

Foi inevitável. Não havia tempo para parar. Foi um ato sem pensar, instinto talvez, mas as mãos de Tracy apertaram o volante com tanta força que o girou como se a sua vida e a do garoto dependessem disso. E dependiam.

Ao se dar conta, estava indo de encontro à calçada, às pessoas. Elas fugiam como formigas para os lados deixando qualquer coisa que tivessem em mãos para trás.

O carro de Tracy voou para dentro de um comércio. O rumor de prédio desabando, ensurdecedor. Vidros se estilhaçaram no momento da colisão e avançaram para o rosto de Tracy como lâminas afiadas. A poeira abaixou misturando-se aos estilhaços que mais se assemelhavam a minúsculos cristais forrando todo o chão. E Tracy não soube o que acontecera depois, foi como se a vida esvaísse de seus olhos.

A polícia e emergência foram imediatamente contatados. Alexia Saymors fora levada rapidamente para o Hospital Bellavue, e o agente Brian Klins da polícia de Nova York cuidaria do restante. Ele encontrou documentos e também um revólver no automóvel.

Joey Strandy esperaria Tracy Gummer no aeroporto por toda uma tarde.



- O que está me dizendo, Sara?

- O que ouviu, Lise. Tracy planejou assassinar Kenny.

E foi quando ouviram o som da TV: “Edifício Rockfeller foi evacuado pela polícia local. Há indícios de um possível atentado. O produtor musical Kenny Nolan, foi encontrado baleado...”

Lise se virou para Sara.

- Escute-me bem, você nunca soube de nada, assim como eu, entendeu?

- Lise...

- A partir de hoje, se a polícia nos procurar, diremos que Tracy trabalhou no Clube, mas que desaparecera por alguns dias. Ela não passará de mais uma funcionária.

- Não devemos fazer isso. Ela é da sua família, sua sobrinha. Devemos ajudá-la! Por Deus!

- Não temos escolha. Diremos que Kenny é o único proprietário do local. Não quero problemas para mim. A polícia não pode saber de nada.

- O quê?

Sara não podia acreditar.

- Será assim de agora em diante. Não conhecemos Tracy Gummer.

89 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 09:44

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 31

- Preciso do número do quarto de Terry Terence.

A atendente desviou os olhos da tela do computador para a figura ilustre na sua frente. Seus dedos pararam de digitar.

- O que disse?

- Que preciso do número do quarto do paciente Terry Terence.

- Desculpe, senhor, mas não estamos no horário de visitas.

E voltou a digitar pouco se importando se Michael Jackson estava ali. Michael respirou fundo, tentando manter a calma. Depois do que Tracy dissera, Terry teria de lhe dar boas explicações, e se fosse verdade, faria questão de pô-lo na cadeia. Mas a irritante da atendente não dava a mínima para qualquer coisa que estivesse acontecendo. Michael bateu a mão no balcão, o que a fez dar um saltinho na cadeira e virar para ele, meio irritada.

- Mas o que foi agora?

- Eu disse que preciso saber onde Terry Terence está!

- E eu já informei ao senhor que não estamos no horário de visitas.

- É muito importante que eu fale com ele.

- E é muito importante que respeitemos os horários de descanso de nossos pacientes, Sr. Jackson. – E então ela se levantou. – Se pensa que terá privilégios por ser Michael Jackson está muito, mas muito enganado. Exijo que respeite nosso hospital!

Ela estava gritando, fazendo alguns funcionários e residentes parar para acompanhar a cena constrangedora. Michael inclinou-se para mais próximo a ela, sussurrando:

- Está gritando, senhora... – ele leu seu crachá. – Sra. Connors. – Depois ele apontou para um pequeno aviso na parede acima dela onde dizia: Silêncio.

Ela abaixou a voz, ajeitando seu terninho azul marinho.

- Não pode subir.

Michael estreitou os olhos para ela. Depois, sorriu.

- Está bem. Obrigado.

A atendente voltou a sentar.

- De nada.

- Sabe onde posso ir ao banheiro?

- Vire o corredor. Terceira porta à esquerda.

Terceira porta à esquerda.

Ele olhou para trás, se certificando que a atendente não o estivesse olhando. Não estava, e subiu as escadas. Mas ainda precisava saber onde estava Terry. Eram cindo andares e inúmeros quartos, não poderia entrar em cada. Pegou seu celular e ligou para um de seus seguranças. Eles deveriam saber.



Um vendedor de carros dizia a Kenny Nolan:

- Se está procurando um automóvel em bom estado e barato, então é este aqui.

Era um Chevette creme, usado. Mas era o que Kenny podia pagar com a grana que restara.

Por enquanto.

E precisaria de um carro para colocar seu plano em ação. Kenny Nolan não sairia perdendo nisso tudo. Não tinha o que pensar, iria aceitar.

- Vou levar. Quanto custa?

O vendedor pensou, coçando uma das têmporas ausentes de cabelo.

- Seiscentos dólares à vista.

O queixo de Kenny caiu.

- Seiscentos dólares? Mas está me roubando! Olhe pra isso, não passa de uma lata velha com rodas!

- Disse que queria algo barato. É só o que temos aqui.

Kenny suspirou.

- Pago quatrocentos.

- Quinhentos na mão e não se fala mais nisso.

Ele precisava do carro. Não ficarei muito tempo com essa coisa. Logo terei uma boa quantia em mãos. Kenny abriu sua carteira e tirou de lá umas notas.

- Fechado.



- Sou Claire Merrivalle, Detetive Matthew Butler.

Alto, ombros largos, barba recém-feita, sorriso simpático e muito atraente.

É... talvez sirva.

Claire o encontrava nas páginas amarelas de classificados. Quando lera o nome, ele lhe soara bem, então resolvera ligar. Queria alguém para descobrir o paradeiro de Kenny para depois ela dar o segundo e último passo: terminar o trabalho mal feito de Tracy Gummer.

Chegara a pensar em deixar o trabalho para os contratados de seu pai, mas ter o prazer de fazer o ato final, isso ela não poderia renegar. Devia ser como uma ambrosia ver a vida esvair dos olhos de Kenny.

Claire fora boa, deu a ele uma segunda chance, fazê-la alcançar o sucesso, mas Kenny não soube aproveitar. Não tinha feito valer. Agora só restara findar as dívidas. E era o que ela faria começando com a ajuda de Matthew Butler.

- Quero que fique no encalço de meu ex-marido.

E ela mostrou uma foto.

- O nome dele é Kenny Nolan. Preciso de detalhes.

Matthew sorriu.

- Entendo.

Está enganado. Você não entende nada. Absolutamente nada.

Matthew especulava: Deve ser mais uma riquinha mimada querendo se meter na vida do ex.

Claire cruzou as pernas por baixo da mesa do Café, fazendo seu pé roçar numa das pernas de Matthew. Ela pôde sentir uma de suas panturrilhas rijas.

- Faça bem o seu trabalho, e talvez, ganhará um bônus.

Claire sorriu, insinuante, por trás da xícara ao levar o café à boca.

É uma vadia.

Matthew sorriu de volta.



- Você tem cinco minutos para salvar a sua vida. Agora comece a falar.

Terry tentou se acomodar na cama, mas desistiu quando seu corpo gritou. Engoliu em seco, encarando Michael. Ele só podia estar louco.

- Está maluco?

Michael deu um passo à frente, inclinou seu corpo até Terry e o agarrou com uma mão pela gola da camisa, seu rosto franzido de raiva.

- Talvez esteja, Terry. Ou seria Adam Penn?

Terry retraiu com o soar de seu antigo nome. Como Michael poderia saber aquilo? Ele encheu os pulmões o máximo que pôde, depois, fixou seus olhos no dele e falou pausadamente:

- Você está maluco.

Tirou a mão dele de perto de si.

- Vou chamar o meu médico. Não deveria estar aqui, quem o deixou subir?

- Está aqui porque mandei que o trouxessem para cá. Você apareceu descontrolado em minha casa naquela noite, lembra-se disso?

- Eu estava bêbado.

- E devendo mais de dois milhões de dólares com o bônus de sua vida.

Michael não poderia saber de nada.

- Eu já disse que estava bêbado. Desde quando escuta o que um bêbado diz?

- Desde quando esse bêbado é o meu amigo. Só preciso da verdade, Terry. Tenho direito de saber. Diz respeito a minha vida também.

Ele mal podia acreditar que contara toda a sua vida nos mais inéditos detalhes a um farsante.

- O que mais você quer saber?

Michael levou uma mão à cabeça dando uns passos a esmo, adquirindo forças para o que viria a dizer, e então se virou para a figura cheia de hematomas à sua frente.

- Conhecia Diana, Terry, e teve uma filha com ela - aquela que agora está nos jornais sendo acusada de tentativa de homicídio! – Ele por pouco não gritou, mas sua voz estava cheia de incredulidade. – Você era meu amigo, podia confiar em mim, por que não me disse nada?

Terry moveu os olhos para a expressão desesperadora e decepcionada de Michael. Nada disse.

- E não deu a mínina para o que estivesse acontecendo com ela! Como... Deus, como pôde?

Terry revirou os olhos, aquilo estava cansativo.

- Vou chamar o meu médico, mas dessa vez, será para você. Ele o encaminhará para um psiquiatra.

- Não fuja do assunto, Terry.

- Nãoassunto, se é que você não percebeu ainda. Não faço idéia do que está dizendo. Não sei quem é Tracy Gummer ou qualquer ligação que ela tenha com essas pessoas. E também, de nada me interessa. Como pode desconfiar de mim?

Tracy Gummer.

- Lembrou rápido demais o sobrenome dela.

Retrucou de imediato.

- Porque está nos jornais a todo o instante.

Fazia sentido.

Uma pausa.

- E você? – sua voz era incisiva. – Por que tamanho interesse nesse caso? Está trabalhando para a polícia ou mantendo Tracy Gummer invisível aos olhos dela?

Ele soltou uma risada.

Ou mantendo Tracy invisível aos olhos dela?

Michael sentiu seu estômago apertar.

- Quero que vá embora. Preciso descansar. E descanse você também, me parece péssimo, caro.

- Talvez eu deva ir mesmo. Mas isso não acabou, está me ouvindo? Não acabou! Vou descobrir tudo, Terry. Tudo.

- Já disse que você está maluco.

E ele se afastou, vendo Terry Terence espalmar as mãos no rosto, tenso.

Talvez mais lúcido do que nunca esteve.

Os lábios de Terry se apertaram.

Do que nunca esteve.

O circo estava se fechando. Perigosamente se fechando.

Não importava como Michael descobrira, mas que ele descobrira.

90 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 09:45

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 32

A verdade era que ele não sabia o que dizer. Vê-la chorar compulsiva depois de dizer que o amava, chegava a ser desconcertante, talvez até perturbador. Não tinha idéia de como agir, de como se aproximar, de dizer que de alguma forma estava tudo bem, mesmo não estando. Hélène mostrou-se descontrolada, totalmente inversa da empregada que contratara anos atrás.

- Hélène, vamos, pare com isso, pare!

Mas ela parecia falecer em lágrimas.

- Pare, Hélène, pare!

Ele a apertou pelos pulsos, quase violento. E então ela parou, sem ruído qualquer, somente a sua respiração estrépita. No momento de pausa, ela o fitou, olhando-o pela primeira vez nos olhos por mais de um segundo. Namorando-o por um instante seu par amendoado e castanho de olhos. Sua expressão hesitante, desconcertada; seus dedos firmes e longos apertando-a pelos pulsos, deixando-os ao redor a pele avermelhada, o seu sangue quente acumulando-se contornando os dedos de Michael. Mais uma lágrima salgada, e ele a soltou, contrito. Mordendo o lábio com força, marcando a pele de sua boca com seus dentes.

Hélène se afastou com passos errantes para trás. Moveu os olhos como se procurasse uma saída para tudo aquilo; queria crer que não passava de um pesadelo. Mas então viu a mancha de dedos em seus pulsos e soube, ela estava ali, e o amava. Sentou-se numa das cadeiras do escritório, encolhida, mantendo as mãos repousas nos joelhos desnudos pelo vestido, e a cabeça baixa, não por vergonha, mas por não mais conseguir encará-lo nos olhos.

- Escute-me – a voz de Michael soava macia, sussurrada e firme. -, perdoe-me. Não queria agir assim, mas você... Por que isso agora, Hélène?

Ela não respondeu de imediato. Levantou os olhos para ele a alguns centímetros de distância.

- Non é de agorra. Eu o amo desde a primeirra vez qui o vi, qui o conheci. Non pude evitarr.

Michael fechou os olhos por um momento, pensando. Tudo parecia desprovido de razão.

- Mas... mas nada disso faz sentido!

Hélène se levantou.

- E desd’ quand’ amarr alguém faz sentid’?

Ela tinha a razão. Michael ainda amava Paige; amava-a como se ela ainda estivesse ao seu lado, como se sua vida dependesse disso, e não fazia sentido.

- Más sou apenas una emprregada, non é? Non passo disso, non é mesmo?

- Não fale sem pensar; não julgue. Nunca que deixaria de amar alguém por isso.

Hélène deu um passo à frente.

- Enton – ela olhou para si mesma – o qui há de errad’ comigui? Non sou bonita o bastante? Talvez se eu fosse como Paige, tud’ poderria ser diferrente.

Nada seria diferente.

- Monsieur ama tanto Paige, mas tanto, qui posso sentir isse de qualquerr ponto que estivesse nesse planet’. E ela non se import’ com monsieur, non. E sab'disse.

A conversa estava atingindo uma ferida.

- Não estamos falando de Paige, Hélène.

Hélène avançou ainda mais, chegando a uma distância perigosa de Michael. Ele podia sentir seu hálito e sua respiração morna. Michael não se afastou.

- Deix’me ser como Paige – sua voz era sussurrada. – Deix’me dar o qui ela non quis.

Impossível. Ele se virou e deu alguns passos antes de voltar a ela novamente, buscando tempo de dizer:

- Eu não posso. Não a amo como quer que eu a ame.

E aquele foi o limite para Hélène. Se recusava a ouvir mais, a se machucar mais. Enxugou as lágrimas e depois tornou a fitá-lo, firme.

- Perrdoe-me porr tudo. Perrdoe-me. Nunc’qui monsieur deverria saberr disse. Nunc’.

E como uma garota, ela o deixou, apressada, ansiando um refúgio para sua dor. Michael nunca a amaria, foi uma ilusão pensar que sim. Pensar que ser como Paige lhe daria esperanças. Não, ele nunca a amaria.

Paris surgiu no escritório de seu pai instante após.

- Papai, o que houve com Hélène? Eu a vi sair correndo. Está tudo bem?

Michael abraçou sua pequena.

- Sim, querida, está tudo bem.

Um murmúrio.

Hélène chorou por toda a tarde e noite naquele dia. Ela deveria ter voltado para casa, para sua família e não ter se prendido a uma fantasia infantil. Iria embora, estava decidido. Precisava apenas arrumar as passagens. Sentiria saudade das crianças, daquela casa, mas na realidade, não havia mais por que continuar ali. Em vez de prazer, seria torturante ver e conviver com ele depois disso. Ele sabia de seu segredo, de seu segredo idiota. De seu sentimento imbecil de amá-lo. Tudo não passava de uma ilusão.

Serr como Paige..., era uma piada.

Arriando-se em sua cama, esgueirou a mão para debaixo do colchão, revelando os brincos de Paige. Olhou-os por um momento, decepcionada, e então os lançou para algum canto. Estava tudo acabado...

Ou quase acabado.

Qualquer coisa, havia dito os detetives a si. E ela tinha uma coisa a dizer. Michael não a poderia amar, mas não seria somente ela a sofrer nisso tudo.

Non serrá.

A silhueta que ela havia visto no carro naquela noite, se assemelhava e muito a que vira no escritório de Michael na noite do jantar de Terry, e ambas, lembravam a foragida Tracy Gummer. Hélène não poderia estar enganada.

Por qui monsieur terria algo com ela?

A dúvida permaneceria, e também não importava. Ligaria para Cássin e Hunter; eles descobririam. E Hélène estaria de volta a Saint-Étienne. E então sim, estaria tudo acabado para si.



Terry chegou a sua casa cambaleando, o efeito dos sedativos já estavam no fim e ele podia sentir as pontadas ardentes de dor retornar. Voltar para lá lhe traziam péssimas recordações. Os homens com armas em punho e expressões frias ameaçando-lhe a vida era algo aterrador.

Girou a chave na fechadura e experimentou a maçaneta, abriu a porta. Estava um breu. Apalpou a parede à procura do interruptor de luz. Quando o acendeu, pôde relembrar os socos, chutes e gritos de agonia que soltava. Estava tudo ali, fedendo a medo. Terry cambaleou até sua secretária eletrônica e apertou um botão. Enquanto se desfazia do casaco e preparava sua mente para um relaxante banho abrindo uma garrafa de bebida, seus músculos enrijeceram e seu coração bateu tão forte que desregulou o ritmo de seus pulmões.

Dois milhões de dólares.

Foi a última frase que ele escutou antes de entrar em alguma espécie de transe.

Dois milhões de dólares.

Seus dedos afrouxaram e o copo de conhaque espatifou no piso. Terry precisou se sentar.

Dois milhões de dólares.

Não o deixariam em paz, e não poderia contatar a ajuda, a polícia, ou tudo viria à tona.

Dois milhões de dólares.

Michael não poderia saber, e mais ninguém. Tivera sorte de ainda estar vivo, mas não por muito tempo. Disso tinha certeza. Os Merrivalle não faziam ameaças à toa. Eles voltariam e Terry teria de dar um jeito de arrumar a grana antes que sua vida pagasse a quantia.

Dois milhões de dólares.

Estava perdido. Não tinha dois milhões de dólares. Seu divórcio com Grace fora péssimo aos negócios, e Michael, seria arriscado demais pedir a ele.

Sua salvação viria de saltos e berço de ouro.

Dois milhões de dólares.



Duas semanas depois

- Está perfeito, querida.

Paige experimentava seu vestido de casamento.

Falarei com Terry antes de ir a Michael. É mais seguro e o melhor a fazer.

- Já está tudo preparado. – Continuava Marie. - O local, os convites, a festa. Será memorável. Santa Mônica jamais se esquecerá do casamento de Paige Miller e Davey Preston.

Marie a estava irritando. Paige encontrava-se em desespero, a data se aproximava depressa demais.

Procurarei Terry.



- Mas o quê? – Ela gritou, o que fez algumas pessoas do Café pararem para olhá-la.Paige não podia acreditar.- Para quê quer todo esse dinheiro? – Ela sussurrou, inclinando-se para perto de Terry.

Terry deu mais um gole em sua bebida.

- Porque... não te interessa. – Sua voz era áspera e repleta de desdenho. – Esse é o acordo. Você me paga, e eu calo a boca. Poderá voltar para Michael sem problema.

Paige pensou.

- Não sei se poderei conseguir essa quantia. É dinheiro demais.

Ele arqueou uma sobrancelha.

- É isso ou nada. Foi você quem me procurou, estou tentando ajudá-la.

Como era cínico! Paige fez uma pausa.

- Precisarei de uma semana.

- Não mais que isso.

Ela suspirou.

- Está bem. Mas saiba que está me roubando.

- Em dinheiro vivo.

- Terça, na feira da Brooks.

91 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 09:46

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 33

Michael estava no seu campo de visão, atropelando-a mais uma vez com suas perguntas.

- Vamos, Tracy, não tente fugir do assunto. Responda.

Ela já estava de saco cheio do assunto. Não queria falar sobre Kenny, não queria relembrar Kenny. Queria que Michael a deixasse em paz.

- Será que poderíamos parar de falar sobre isso?

- Não.

- Ótimo, então eu vou dormir.

Tracy se levantou e caminhou em direção aos quartos.

- Já parou para pensar em como vai ser depois que tudo isso acabar?

Os pés de Tracy estacaram no chão. Era só o que ela conseguia pensar, e o que não suportava mais pensar. Michael continuou:

- Não ficará para o resto da vida foragida, Tracy. Essa é a verdade, e seria bom que se acostumasse com a idéia. Num momento vão descobrir que está aqui, vão descobrir que estou aqui com você. Estou tentando ajudá-la, Tracy.

Ela se virou.

- Jamais neguei que estivesse tentando me ajudar, Michael. Jamais.

- Só quero ter a certeza que não sofrerá mais por Kenny. Ele não é digno disso.

Tracy hesitou por um instante. Nada fazia qualquer sentido agora.

- Onde está querendo chegar?

Michael também se levantou do pequeno sofá e caminhou até ela,

- Quando formos pegos, Tracy, seremos presos e seremos julgados. As pessoas são más, e vão desejar vê-la no fundo do poço. E você vai se sentir no fundo do poço. Dirão coisas insuportáveis sobre você, mas eu estarei lá para te ajudar. Só não suportarei saber que ainda se martiriza por Kenny. É como dar um tiro no próprio pé.

- Isso ainda não faz sentido, Michael.

Ele pousou suas mãos no rosto dela, direcionando para seu rosto, para seus olhos.

- Quero que entenda que é preciso ser forte.

Ela o fitou.

- Ainda não estou compreendo. Está me dizendo que sou fraca?

Michael fechou os olhos por um instante, abrindo-os em seguida.

- Não. Só estou dizendo que é preciso ser mais forte que isso. Tem de pensar em como vai ser depois que tudo isso acabar. Terá de enfrentar os desafios. Tem de parar de se esquivar de tudo isso. Não quero mais vê-la sofrer às escondidas por Kenny. Quero vê-la pensar sobre seu futuro.

- Mas, Michael...

- Pense nisso, Tracy.

E ele agarrou as chaves do carro sobre a mesinha de centro da sala e sumiu porta a fora. Depois de um momento Tracy pôde ouvir o ranger do motor até desaparecer estrada adentro.

Ela não podia acreditar que toda aquela conversa começara depois que ele lhe trouxera alguns livros para ler. Romeu e Julieta não fora uma boa proposta. Michael percebera no mesmo instante.



Por que ver Tracy pensar em Kenny Nolan era tão insuportavelmente irritante? Seria por que ele fora um covarde? Michael não sabia a resposta. Mas que lhe era insuportável, era sim. E guiando de volta a cidade, nem se dera conta do automóvel creme usado alguns metros afastado da propriedade onde deixara Tracy.



Claire estava deitada com uma costumeira taça de vinho na mão, admirando o corpo deslumbrante vir em sua direção. Matthew era um homem bonito. Tinha formas perfeitas. Ele se estendeu ao lado de Claire, degustando o sabor do vinho da boca dela.

- O que tem para mim?

Matthew abriu a gaveta do criado-mudo e retirou uma pasta. Entregou a Claire.

- Veja por si mesma.

Ela o empurrou e pôs-se sentada, sedenta pelo o que estivesse escrito no documento. Seus olhos percorreram com fome as linhas até que findou-as, e o rosto de Claire desenhar um sorriso atroz em seus lábios.

Só não imaginava que Matthew iria super faturar com as informações ali contidas.



A feira da Brooks acontecia todos os dias à tarde. Um lugar onde as pessoas podiam comprar, comer e se divertir. Um espaço movimentando e agradável, perfeito para o encontro de Paige e Terry. Ela o aguardava, magnífica, assentada num banco de praça com uma pequena mala de mão. Avistando Terry soergueu-se, andou ao seu encontro deixando a valise em suas mãos, despercebidamente.



Havia uma mensagem na secretária eletrônica aquela manhã:

Peço que entre em contato com urgência. Tenho sérias indagações. Procure ler o jornal desta manhã.

Detetive Jill Cássin.

Foi o bastante para que Michael saltasse da poltrona e corresse para a cozinha questionando uma criada:

- Por acaso já entregaram o jornal de hoje?

A empregada hesitou por um instante. Não havia tido tempo para verificar.

- Oh, desculpe, mas eu não...

Michael não ouviu o resto. Era como se uma voz lhe dissesse que tudo estava chegando ao fim. Que estava sendo acuado, e que de alguma forma havia sido traído.

Hélène sabia, e contou a polícia. Posso ser um homem morto pela mídia daqui a algumas horas, e Tracy... Deus, o que será de Tracy?

A criada insistia em chamá-lo:

- Senhor... senhor...

Ele acordou do transe dando-se conta que...

- Lamento dizer, mas Hélène arrumou as malas essa manhã e disse que voltaria para casa... sei quanto o senhor a simpatizava.

Ela se vingou.

- E deixaram isso aqui também. – Finalizou.

Ele pegou o envelope bem ordenado e abriu-o, vendo a grafia bem feita dizer a si que o casamento de Paige era na próxima semana. Jackson não soube identificar o que sentiu. Deu meia volta, verificou se as chaves do carro encontravam-se no bolso e saiu, deixando a empregada a questionar o que lhe procedia.

Michael sentia uma mescla de sensações turbilhonando sua cabeça. Deixando confuso, angustiado, inseguro. Mas tinha em mente que sua maior prioridade: zelar pela proteção de Tracy. E isso, ele faria até o fim.

Matthew tornava-se milionário com as informações que Vanity Fair, CBN, The Sun e qualquer outro grande ou pequeno meio de comunicação divulgava as notícias de Tracy Gummer e a suposta parceria do astro pop Michael Jackson em acobertá-la, dificultando o trabalho da polícia.

Matthew era mais um nome na lista dos futuros assassinatos de Claire Merrivalle.

92 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 09:47

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 34

- Santo Deus, fale comigo, por que está assim?

- Depressa Tracy, arrume suas coisas, precisamos sair daqui depressa!

E Michael socava os pertences dela de uma vez numa mochila. Tracy o parou virando-o e segurando-o pelos braços. O poço profundo de seus olhos eram como uma carta aberta.

- Descobriram não foi? Estão atrás de você... de mim.

Ele molhou os lábios franzindo o cenho, corrigindo a frase dela:

- De nós. Estou com você.

Tracy continuou a fitá-lo.

- Sabe que não precisa fazer isso por mim. Ainda há chance, você pode sair dessa. Eu estou num caminho perdido, sem fim. Eu sou um monstro, Michael. Eu me tornei isso. Me tornaram assim.

Michael respirou, parou por um longo instante, inspirando o mesmo ar dela, o cheiro, tentando decifrar o que ambos os olhos refletidos um do outro diziam. E ele soube:

- Eu a amo, Tracy. Eu aprendi a te adorar e... isso me sufoca de uma forma que me deslumbra. Penso que em toda minha vida, nunca me aconteceu algo assim. É diferente.

Tracy soltou seus braços, dando um passo atrás, tornando a socar os pertences na mochila. Queria evitar a visão dele sobre si. Mas ainda assim uma vontade dentro de si dizia para voltar a fitá-lo. E ela o fez com olhos de ternura.

- Não deve ser o que está pensando. Está misturando os sentimentos...

- Estou dizendo o que sinto e você me diz que estou misturando os sentimentos?

Ela se silenciou, desviando mais uma vez o encontro de faces.

- Lamento, mas...

Não pôde finalizar. De alguma maneira seus lábios e corpos se atraíram, criando um laço. Despencaram nos lençóis de algodão aos murmúrios de prazer no roçar de peles. Tracy jogou as roupas e todo resto que havia na cama no chão amadeirado. A ânsia era tanta que puxou a camisa de Michael de tal forma que fez os botões voarem, arrancando um suspiro sôfrego de ambos.

Se tratava de um sentimento retido, sufocado. Uma vontade, uma gana que encontrou a oportunidade de aparecer, de se fazer sentir.

Michael indagou num momento de folga:

- Por que nunca assume o que realmente sente?

Tracy demorou um momento para responder:

- Talvez porque nunca houvesse sentido algo verdadeiro, e não soubesse o que fazer.

Michael sorriu, terno:

- Quero que isso seja especial para você.

Ela beijou-lhe o pescoço e sussurrou:

- Já está sendo.

Uma tempestade ameaçava deixar a cidade em alerta. Forte, violenta, ela açoitava o telhado amadeirado do chalé, o que ocultava os sons de prazer.

Depois, Tracy encontraria o convite de casamento de Paige, e compreenderia certas reações.

A imprensa chegou em peso à casa de Michael Jackson. Todos queriam respostas. O maior astro pop tramando com uma foragida da polícia. Isso era ambrosia para os repórteres. Um prato cheio para se ser degustado quente. O telefone não parava de chamar e a polícia mais uma vez surgia em sua mansão.

Um dos seguranças comunicou-o:

- Senhor, eles estão aqui.

Michael suspirou.

- Eu sei. Deixe os detetives entrarem. Encaminhe-os à sala de estar. É onde estarei.

Steven Hunter assentou logo após Jill Cássin.

- Estamos com um mandado de prisão, Sr. Jackson.

- Não podem me prender. Tudo o que vêm não passa de especulações à minha pessoa. Minha vida inteira foi assim.

- Compreendemos – contornou Steven. – Mas está no momento de garantir sua liberdade e carreira. Conte-nos a verdade. Senhorita Hélène fez-nos esse favor.

Um fragmento de sorriso atencioso surgiu na face do astro antes de perguntar:

- Ótimo. Por onde querem que eu comece?

Encontrava-se no seu limite.

Contou metade da verdade. Conhecia Diana, conhecia Tracy e ela procurou-o, pensou em ajudá-la, mas não o fez por não querer comprometer-se. A mídia só queria ganhar com o seu nome. E Hélène... Ah, Hélène, era uma louca apaixonada não correspondida que resolvera se vingar quando apareceu a melhor das oportunidades.

Foi satisfatório até presente momento.

Quando foram embora, uma empregada surgiu com um telefone nas mãos.

- Constance Miller, Senhor. Ela insiste em lhe falar. Liga com frequência. Parece ser uma emergência.

Ele revirou os olhos, exasperado.

- Já disse que não quero atendê-la.

- Ela diz que é importante.

- Diga a ela que tudo que se refere aos Miller não me têm mais importância.

O casamento de Paige seria daqui a poucas horas... e Constance Miller estava a um passo do suicídio.

Trancou-se no banheiro seminua com um telefone, um relógio e garrafas de bebida. Delirando.

Encheu a banheira e deitou-se. Bebeu até seu estômago não suportar mais e por tudo para fora. Irritada, arremessou uma garrafa contra a parede. Olhando para o relógio via a hora fatal de aproximar... Ligava para a residência de Jackson com insistência, somente ele poderia fazer tudo se resolver... mas aquele imbecil não queria. Não se importava com os Miller, não se importava com a irmãzinha adorável de Paige, queria que Constance Miller fosse para o inferno. Todos a odiavam. Todos.

Começou a chorar, a urrar como um animal. O ponteiro do relógio atingiu às 15:00 em ponto, o momento em que Paige estaria dizendo o grande sim a Davey Preston e que Connie se ergueria e enxergasse nos afiados cacos de vidro uma saída para tudo aquilo.

Cortou o mais fundo que pôde os pulsos, pintando a banheira de um vermelho denso.

Luxúria, Ira, Soberba.



Era uma madrugada fria quando Michael foi se encontrar com Tracy num pequeno hotel em falência, onde nem o atendente da recepção sabia o que estava fazendo ali. Parecia estar ébrio o dia inteiro e isso era ótimo para eles. Michael subiu ao quarto dela e ao vê-la abraçou-a.

- Falta pouco não é? - Indagou Tracy sabendo que ele entenderia.

- Não sei do que fala...

Ele se afastou e sentou na cadeira frente a uma penteadeira antiga.

Tracy se moveu até o armário e retirou de lá o convite de casamento, entregando ao astro.

- É isso que está te deixando assim, eu sei. Você diz que me ama, mas ela ainda consegue te deixar desse jeito.

Michael ergueu os olhos.

- Você se engana, Paige é passado.

Ela assentiu, fingindo crer em suas palavras. Tracy tinha certeza, Michael a podia amar, mas não como homem e mulher, ele a amava de um jeito esquisito, como se sentisse a obrigação de dar-lhe carinho e proteção por ter crescido sem saber exatamente o que é isso. Ele confundira, se precipitara e Tracy soubera disso desde o começo. Mas ela, ela sabia que o que nutria por Michael era verdadeiro. Amor mesmo. E por mais incrível que isso parecesse, ela não se importava.

- Ainda tem tempo. Vá e diga que a ama.

Ele se levantou.

- Eu amo você!

Tracy relutou:

- Mas não do jeito que a ama. Vá.

Vá ser feliz.

Ela permaneceu imóvel vendo-o se afastar e somente ouviu o bater da porta atrás de si. Ele faria o que era certo.

Estava enganada.

A cerimônia havia começado. Paige com seu vestido branco rendando e seus cabelos prateados caminhava em direção a David Preston, que a aguardava ansioso para a concretização de seu amor. Paige seria sua à face de Deus. E ele sentia-se abençoado por isso.

Michael estava lá, ao fundo, discreto, silencioso feito um felino. Viu-a aceitar David pela vida inteira. Não se sentiu tentado a parar a festa, a pegar Paige pelos braços e levá-la para algum lugar onde só os dois poderiam se amar. Não. Deixou que o destino seguisse seu caminho. Era assim que tinha de ser. Michael Joseph Jackson estava predestinado a ser um homem de amores profundos e magníficos, passageiros e eternos, mas só.

Antes que todos se levantassem para cumprimentar os noivos, Michael já havia partido. E o que ele jamais imaginaria era que ela sabia que ele estava lá.

93 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 09:48

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 35

A notícia da vez nos jornais locais tratava do falecimento de Matthew Butler, o detetive que descobrira informações valiosas sobre o caso Tracy Gummer envolvendo Jackson. Fora encontrado em seu novo apartamento adormecido, com bebidas e drogas, mas Terry Terence sabia que não era simples assim. Tinha cheiro da família Merrivalle. E pelo pouco que havia lido nos jornais, parecia ter trabalhado para Claire e ter lhe dado um golpe. E isso só fazia aumentar sua angústia. Fugiria para a Flórida com os dois milhões.

Estava errado. Não chegaria tão longe.

Seria morto brutalmente, descobrindo no momento que o dinheiro que Paige lhe dera para sua safa, na verdade, era seu nó de carrasco.

Falso.

94 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 09:52

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 36

Tracy despertou com um rosto estranho a lhe encarar aquela manhã. Foi instinto, tentou se esquivar, pular da cama, mas não fora rápida o bastante para que as mãos estranhas a asfixiassem com o travesseiro. Ela lutou, seu peito lutou, seu corpo parou.

Kenny Nolan.

- Achou que eu deixaria o tempo resolver, Tracy, querida? Eu resolvo com minhas próprias mãos.

É tudo sua culpa. Tudo!

A respiração era um fio, mal dava para se notar.

Kenny Nolan embebedou um pequeno pano em álcool e pressionou contra o rosto de Tracy.

Isso... dorme, vadia. Você ainda vai me render muita grana.

Joey Strandy estudava compulsivamente todas as notícias que saiam nos jornais, formulava dados, especulava, ajudava a polícia no paradeiro de Tracy. Conhecia sua mente, e saberia onde influenciaria Michael a lhe esconder. Steven Hunter surgiu, jogando sobre a mesa o documento.

- Sabemos onde Tracy está.

A inspeção fora em toda a cidade. Unidades se reuniram pelo mesmo ideal. Tracy só poderia estar em um hotel. E era para onde eles iriam.

E para onde Tracy não estaria mais.

Kenny jogou Tracy sobre o ombro e cobriu-lhe o rosto com um pedaço de tecido. Saiu da espelunca pelos fundos. Encontrando seu Chevette, abriu-o e jogou o corpo de Tracy no banco de passageiro, ainda desacordada. Amarrou-lhe os pulsos e pernas contra qualquer investida sua ao descobrir o que ocorria.

Fora sequestrada.



Michael se aproximava da pocilga quando avistou uma movimentação familiar e frenética. As luzes vermelhas e azuis piscavam sobre a fachada hotel enquanto os agentes a invadiam e vasculhavam inutilmente. O astro entrou em pânico ao se dar conta que seu celular vibrava e gritava no porta-luvas. Abriu-o com uma esperança só, que a voz do outro lado fosse de Tracy. E era.

- Tracy...

Tracy Gummer despertara enjoada e com uma tremenda dor de cabeça. A garganta seca tentava satisfazer com o resto de saliva quente no céu da boca. Abrindo os olhos, foi surpreendida por uma luz intensa que, em seu meio, desenhava um corpo ereto e esguio. Ele se aproximava e sua silhueta outrora desconhecida ganhava formas familiares.

- Olá, Tracy.

Kenny Nolan lhe sorria. Ele lhe sorria.

Os olhos de Tracy foram invadidos por uma onda de medo.

- Está com medo? Pensei que jamais o sentisse.

Ele estudou-a por um momento. Tracy procurava umedecer os lábios.

- Ah, está com sede. Quer um pouco de água?

Ela assentiu levemente com a cabeça.

Kenny se virou enchendo um copo numa mesinha próxima onde havia uma jarra.

- Eu vou lhe dar.

E arremessou o conteúdo contra seu rosto. Tracy urrou:

- Seu filho de uma...

Foi quando percebeu que fora amarrada braços e pernas numa cadeira.

- Não se exalte tanto, meu bem, ou poderá se machucar.

Por Deus, ela quis matá-lo. Devia tê-lo matado.

- O que você quer? – Sua voz continha raiva.

- Que me ajude a obter uma solidariedade do cantorzinho. Vamos ver se você vale alguma coisa.

- E o que o faz pensar que eu o ajudaria?

O vilão riu.

- Vida ou morte. Isso não a atém em algum valor?

E Tracy avistou um soco atingir seu rosto.



Havia um silêncio no outro lado da linha, deixando Michael a pensar o pior.

- Michael...

Ele vibrou.

- Santo Deus, Tracy, o que houve? Como descobriu que eles viriam? Diga-me onde está que vou ao seu encontro.

- Escute-me bem... – a voz tinha cansaço, uma ponta de derrota. – Não me procure mais, ouviu bem? Estou com Kenny, agora.

Um som de murro, um gemer.

- Tracy! – gritou. – Fale comigo, me diga onde está!

Kenny tomou o celular das mãos dela.

- Quer saber onde ela está? Então faça um depósito de uns poucos milhões em minha conta na suíça e estará tudo acertado.

A ligação se findara.

Kenny achegou seu rosto no de Tracy.

- Está doendo, querida?

Ela lhe cuspiu. Ele fixou-se nela por um instante, cheio de ódio.

- Sua vadia! Não vai se sair bem dessa!

Tracy instava: Michael, por favor, não se afunde mais nisso.

Mas Michael iria até o fim. E chegou a conclusão que estava na hora de contar a verdadeira versão à Cássin e Hunter. Viu que a movimentação ainda era grande no pequeno hotel, deu a volta e seguiu pela estrada.

95 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 09:53

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 37

- Não deveria ter nos ocultado tanto, Sr.Jackson – era Steven quem alertava. – Sabe que poderá ser acusado por falso depoimento.

- Isso não me importa agora. Quero que encontrem Tracy. Ela está nas mãos de um louco.

- Faremos o possível, Sr. Jackson.

E Steven Hunter deixou-o só.



- Onde estamos, Kenny? – Inquirira Tracy, varrendo a pequena sala humilde de luxo com os olhos. – Que lugar é esse?

Tracy escutou saltos baterem contra o assoalho e sentiu invadir seus pulmões um perfume conhecido.

- Está num lugar onde ninguém poderá saber que aqui está, Tracy.

A voz... Tracy olhou de soslaio receosa de acreditar que aquilo fosse real.

- Olá, meu bem.

Kenny agarrou-a dando-lhe um beijo com vigor.

- Estive com muita saudade.

Tracy não parecia crer no que via.

- Digo o mesmo.

- Espero que não a tenha matado toda com aquele idiota do Matthew. Fico até com ciúmes de pensar nele usando esse corpinho.

Claire respondera:

- Sabe que tive de usar um pouco de meus atributos.



- Claire? – Tracy indagara, incrédula. Aquilo só podia ser uma miragem.

Ela lhe lançou uma piscadela.

- Como se sente, querida?

Não era possível raciocinar.

- Eu não entendo... pensei que...

- Pensou o que todos deveriam ter pensado. – Interpelou Claire. – Não se culpe, querida. – E voltou a abraçar Kenny. – Falou com Michael, amor?

- Tenho certeza que ele fará o que pedi. Parece gostar de Tracy.

Tracy tinha vontade de gritar, e era péssimo sufocar aquilo. Seu olhar ia e vinha de Claire para Kenny, de Kenny para Claire e ainda não compreendia.

- Não tente decifrar, Tracy. Deixe que eu mesma digo para você.

E então, Claire iniciou.

Jill Cássin perguntou:

- Steven, o que pretende fazer?

- Primeiro, grampear os telefones da residência de Jackson, e depois, esperar pelo próximo contato de Kenny e se tivermos sorte, localizá-lo.

Jill despencou na cadeira em frente à Hunter.

- Se tivermos sorte...

Eles teriam. A próxima ligação não tardaria a acontecer.

Tracy ouvia atentamente a mente diabólica de Claire. As pessoas nunca são o que parecem ser.

- Mas você queria que eu matasse Kenny.

Bastou para Claire soltar uma ruidosa risada.

- Porque seria uma ótima investida para a mídia. Vincularam meu nome ao do meu pai, o que já estava sendo esquecido. Eu quero ser vista, quero que as pessoas parem e olhem para mim sabendo quem eu sou. – Ela fez uma breve pausa. - E portas se abriram para mim. Você se tornou minha mina de ouro. Quem poderia imaginar que sua mãe era a melhor amiga de Michael Jackson? E melhor, que ele estava em sua procura?!

Como ela sabia de tudo aquilo?

- Meu Deus, você é doente!

- Tudo bem que Ken foi um estúpido em me trair – ela lançou um olhar hostil para ele -, mas no fim das contas soube contornar a situação e o meu plano deu certo. Por que acha que ele te escolheu, meu bem? Tem jeito de garota idiota, inocente, ingênua que se apaixona pelo primeiro cara bonito que aparecesse. Basta dizer o que quer ouvir e ele se transforma no seu príncipe encantado.

Ela não podia negar, fora uma completa ingênua. Lágrimas começavam a emergir de Tracy.

- Quase o matou, sim. Mas foi quase não foi? Você é fraca. Eu sabia que seria assim.

Kenny sorria ao fundo.

- O puteiro de sua tia? Quem mantinha aquele lugar era eu com a intervenção de Kenny. Não poderia me dar o desplante de aparecer naquele lugar, é claro. Mas foi um investimento muito lucrativo à longo prazo, sabe? A mesada de meu pai já não mantinha as despesas. Depois, transformando Kenny num produtor também não deu muito lucro, foi quando papai pediu para que me separasse de Ken ou cortaria a grana. Ele cortou.

Kenny abraçou Claire pelas costas, depositando um beijo em seu pescoço. Olhou para Tracy.

- Não poderíamos nos separar, Tracy. Somos feitos um para o outro.

Ah, com toda a certeza!

- Foi então que pedi a papai que me ajudasse pela última vez, pedindo a Terry Terence que me colocasse no ramo da música. Eu tenho futuro nisso, sabe? Só precisava de um empurrãozinho de um astro conhecido. E Terry trabalhava para Michael.

Tracy não tinha palavras. Claire era diabólica, psicopata, mimada.

- Nosso divórcio? Uma fachada! Para podermos dispersar certas informações. Foi então que Matthew entrou, mas estava indo fundo demais nas investigações, descobri todo o seu passado e o de Michael através dele. Matthew tentou me chantagear. Eu disse que depois dividiria os lucros com ele, mas não deixou escolha, se precipitou. Revelou tudo para a mídia e então tivermos que dar um jeito. Ele poderia ter sido um dos melhores detetives do país.

Kenny assentiu olhando para ela. Os dois tratavam da vida como se não fosse nada. Agiam como se tivessem a permissão de tirar a vida de alguém, independente de quem fosse. Aquilo se mostrou para Tracy algo aterrador. Claire e Kenny brincavam de deuses.

Tracy começou a se remexer na cadeira, com as amarras apertando-lhe. Queria fugir dali. Tinha medo daqueles dois. Seu rosto ficava rubro a cada tentativa, sua pele com esfoliações.

Claire ergueu seu o rosto.

- Não sairá daqui.

- Não irá tão longe, Claire. Você é louca!

- Doente, louca... do que mais quer me chamar? Você quem está presa aí, querida. Sou eu quem posso te machucar.

A loura virou-se.

- Kenny, faça outra ligação para Jackson. Quero essa grana na minha conta ou essa vadia morre.

96 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 09:54

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 38

O telefone tocou. Todos se apreenderam e Michael estendeu mão para atendê-lo.

Steven sussurrou:

- Só precisamos de um minuto. E então teremos a localização.

Apenas um minuto.



- Claire, o que vai fazer comigo quando tudo isso acabar? - Havia uma mescla de medo e raiva na voz de Tracy.

Claire insinuou um sorriso.

- Não se preocupe com isso.

Tracy entrou em pânico. Havia de se preocupar.



Cinco... quatro... três... dois... E Steven deu um salto.

- Ótimo, quero todas as viaturas em alerta. Temos a localização.



Kenny retornou à sala orgulhoso da notícia que carregava para Claire:

- Michael efetuará o depósito em duas horas.

- Ótimo.

- Não vão escapar dessa tão fácil! – Ameaçou Tracy, percebendo que Claire caminhava em sua direção. Acarinhou seus cabelos, puxando-os em seguida com toda a força para trás. Dizendo rente ao seu ouvido:

- Não teria tanta certeza disso em seu lugar, meu bem. Tome cuidado com o que deseja.

E não houve de tardar. Todos podiam ouvir ao longe a orquestra de sirenes cantando em seus ouvidos, o bastante para que seus instintos os alertassem de perigo iminente. Claire fuzilou Kenny com apenas um olhar.

- Kenny, onde estão os chips usados para as ligações? Você os trocou como mandei?

Ele empalideceu.

- Eu... eu não me recordo. Eu...

- Seu imbecil! – Ela berrou, furiosa, marchando para cima dele. – Deixe-me ver isso aqui. – Tomou o celular das mãos de Kenny, examinando. Após, verificou o tempo de cada ligação.

ÚLTIMA LIGAÇÃO REALIZADA: 1 minuto e 3 segundos.

Claire arremessou o aparelho contra o vidro da janela, fazendo que despencasse como minúsculos cristais no chão e o celular se partisse em poucos pedaços.

- Você é um merda! Mas que droga! Eu o alertei sobre tudo! Qual o seu problema? “Imbecialidade crônica”? Mas que droga, Kenny!



Estavam próximo da propriedade numa viatura estacionada atrás das árvores, com uma horda de policiais preparando-se para a operação. Havia Jill Cássin do seu esquerdo e dois policiais nos bancos dianteiros.

- Que hora vão invadir? Essa ansiedade está me matando!

- Fique calmo, Sr. Jackson. São procedimentos. – Explicou Jill ao astro desesperado.

- Esses procedimentos só atrasam! Ela pode estar morrendo!

Michael avistou Steven. Ele se debruçou sobre a janela da porta, anunciando:

- Daqui a dois minutos. Será como aquelas missões de vida ou morte. Todos estão autorizados a atirar.

- Mas o quê?

Fora como uma navalha no peito de Michael.

- Vocês podem matá-la! Não podem fazer isso!

- Podemos sim – enfatizou Steven -, e é o que vamos fazer.

Foram nessas últimas palavras que Michael se dera conta que Jill o algemava contra a porta da viatura.

- Ficará quietinho onde está.



- Depressa, Kenny. Me ajude a desamarrar Tracy, vamos levá-la conosco.

- Mas isso é perda de tempo, eles já estão aqui.

E Claire se ergueu levando uma mão até o pescoço de Kenny, apertando-o com as unhas.

- Não passei por isso tudo para morrer na praia. Não sou uma perdedora, Kenny. Não sou. Não sou você. Agora, isso ficará comigo. – Ela tomou o revólver da cintura dele. – Leve essa vadia para a caminhonete.

Kenny virou-se para Claire.

- Mas e você?

- Já estarei lá.

Vendo-os se afastar, Claire pegou o galão de gasolina atrás da casa e começou a despejar acendendo logo em seguida um isqueiro. Admirou as chamas cresceram, serpenteando em cada canto, dançarem unidas um balé só delas.. O fogo reluzia em suas íris refletindo o que havia em sua alma, sentimentos imundos, e então, desafazendo-se do transe se afastou o mais depressa que pôde.

Aproximando-se da caminhonete viu pequenos homenzinhos armados correrem em sua direção, com armas apontadas e prestes a disparar jorradas de sangue. Claire sacou o revólver de sua cintura, mirando para Kenny.

Chegou sua hora, Ken.

- Você traiu um Merrivalle.

Ele pensou não ter ouvido direito.

- O que disse?

- Adeus, meu amor.

Você vai me pagar, Kenny. Ninguém trai um Merrivalle. Ninguém. Recordou-se da promessa que havia feito. Traição não havia de admitir, e ela só se pagava com a morte.

E num disparo ele permitiu-se cair, com os olhos voltados para sua deusa, penetrantes, surpresos, sendo manchados por seu próprio pecado.

Claire afastou o corpo com os pés, chutando-o enquanto se acomodava e ligava o motor.

Alguns agentes infiltravam-se na propriedade em chamas para se certificar que Tracy estaria lá. Mas não estava, encontrava-se com pernas e punhos amarrados, amordaçada, encolhida no banco do passageiro assustada com a frieza sem igual de Claire. Esta, por sua vez, soltava gargalhadas atrás do volante, como se não tivesse a menor noção do que estaria prestes a acontecer e do que foi capaz de fazer.



- Droga, me soltem! Por favor, me soltem! – Implorava Michael. – Eu preciso sair daqui! Vocês não me entendem!

- Dá pra calar a boca?! – Intimidou um agente no banco do motorista. – Pelo amor de Deus, como esse cara fala!

- Juan, passe uma rosquinha para ele, pelo menos ele se mantém com a boca fechada! – Zombou o agente do banco do passageiro.

Michael reparou que a chave estava pendurada na calça de Juan.

- Tudo bem, vou querer uma rosquinha.

Havia uma tela que separava o banco de trás do banco da frente, e por isso Juan teve de sair da viatura e abrir a porta de trás.

- Tome aqui! Tem de chocolate, baunilha e...

- Sinto-me satisfeito com chocolate, obrigado.

Michael viu-o se dirigir para seu lugar sentindo-se grato por ter aprendido certas habilidades e ter conseguido pegar a chave sem que percebesse.

- Está uma delícia!

Preciso sair daqui!

Havia um denso matagal logo à frente, e vendo pelo retrovisor que as viaturas ainda estavam em seu encalço na estrada, resolveu parar no meio-fio. Empunhando a arma, deu a volta no automóvel e abriu a porta do lado do passageiro, puxando Tracy com toda a força, mas mantendo-se atenta a distância dela com o perigo.

Tracy queria gritar, mas o som saía abafado o que a deixava frustrada. Queria lutar, mas as amarras eram imbatíveis. Claire a jogava para fora da caminhonete e desamarrava suas pernas.

Sussurrara em seu ouvido:

- Estou com uma arma bem aqui. – E a encostara contra suas costas. - E se não quiser terminar como Kenny, sugiro que seja uma mocinha comportada. Agora depressa!

E ao longe, elas pareciam se fundir ao meio escuro dentre as árvores densas. A noite começava a dar o seu prenúncio.



O som crepitante da voz de Steven ecoava no rádio.

- A vadia da garota matou o marido e se enfiou num puta matagal com Tracy. Vamos efetuar uma batida no local agora. Sugiro que siga com Michael para a delegacia, soldado Juan.

Juan aproximou o aparelho da boca.

- Entendido, detetive.

O agente do banco do passageiro cutucava Juan.

- Mas o que foi, PO***? Não vê que estou falando com o detetive e...

Michael não estava lá. Se encontrava a uma considerável distância da viatura que o prendera, atento ao celular, esperançoso que tocasse. Continuou andando. O céu acinzentado se mesclando com a noite, e ela veio rápido.

Os minutos passavam depressa assim como as horas, e foi quando Tracy caiu sobre algumas folhas, exausta, sentindo que seus pulmões poderiam explodir a qualquer instante com o tanto que procuravam ar.

- Mas o que está fazendo? – Indagava Claire, incrédula. – Não podemos parar!

Tracy moveu os olhos até ela, fechando-os logo em seguida.

- Não! Você vem comigo! – Claire fazia o maior esforço para não gritar. – Quer morrer mais cedo? É isso? É isso o que você quer?

Tracy abriu os olhos revelando pupilas dilatadas.

- Ótimo, erga-se!

Mais alguns metros e enfim Tracy conseguira se livrar das amarras em suas mãos. Esperou o momento certo, e então pulou contra Claire, deixando o peso de seu corpo imobilizá-la com o peito contra o chão duro de terra. Juntou-lhe as mãos atrás das costas e amarrou-a.

- Você quer morrer, não é Tracy?

Ela removeu a mordaça de sua boca.

- Não. Eu quero viver para ver você morrer!

Era uma premonição. E ela gritara o mais alto que pôde para que até o inferno pudesse ouvir.

Tracy sacou a arma de Claire, erguendo-se logo em seguida e afastando-se poucos metros, apontando contra sua testa. Claire se levantou com dificuldade, pondo-se na mira de Tracy, a poucos centímetros.

- Você não seria capaz, Tracy, querida.

- Não sabe do que sou capaz, Claire, meu bem.

- Não faça isso, Tracy.

Ela virou o rosto. Era como um milagre, mas ali estava Michael, com o olhar cansado e triste.

- Você não é uma assassina. Não faça isso.

- Eu sou um monstro, Michael. Foi nisso em que me tornei. É isso que eu sou.

A terra no rosto de Tracy se fundia às suas lágrimas. Lágrimas de dor, de arrependimento. Lágrimas por ter nascido, por tudo ter sido assim. Por o destino a ter encaminhado até esse momento.

- Quer saber? É o que você é. Um monstro – instava Claire. – Não ouça o que ele diz... vamos atire em mim! Atire! Não é o que quer? Então vamos!

- Largue a arma e ponha as mãos para cima. – Era uma outra voz, grave. – Repito. Largue a arma e ponha as mãos para cima! Depressa!

Soldado Juan lançou o rádio para seu parceiro.

- Chame o pessoal para cá.

Tracy largou a arma e levantou as mãos.

Parecia ser o fim... mas não era.

Ao largar o revólver e se afastar, Claire correu e lançou-se contra o chão, agarrando-o.

- Solte o revólver, Sra. Nolan.

- Vou soltar.

E então ela deu uma última olhada para o céu escuro, ergueu a arma contra sua cabeça.

Então é assim que deve acabar? Deus não existe, Ele não existe!

- Disse para largar a PO*** dessa arma! – Berrara o Juan.

Silêncio. Pausa. Respiração sôfrega. Êxtase. Apreensão.

Um disparo em meio ao silêncio atmosférico daquele lugar.

Um corpo.

Uma arma largada entre as folhas secas.

Como que Michael e os soldados chegaram ali a tempo, não interessava, era mais bonito ver como um milagre. Um passe de mágica. Ou então um caminho traçado desde o começo para naquele exato instante se encontrarem.

Michael e Tracy saíram algemados, sendo colocados em viaturas diferentes partindo direto para a delegacia.

97 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 10:02

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Capítulo 39 - Posfácio

Após os devidos meses de investigação e apuração, foram inocentados, seguindo cada um o seu devido caminho.

Os mentores Kenny e Claire estavam mortos. Então o caso deu-se por encerrado.

Mas o mundo não haveria de parar por causa disso. Ele continuava com sua movimentação frenética, seus deveres e horários, suas paixões, amores e contradições, mas o coração de Michael parecia querer parar ao se recordar de Tracy. Sua vida mudara definitivamente em apenas um ano. Era como se descobrisse que, não era o mundo que girava em torno de nós, mas nós em torno dele. E nada disso parecia fazer qualquer sentido.

- Papai, papai! Olha o que fiz! – Blanket exclamava sacudindo a folha no ar.

- Hum... deixe-me ver.

Ele agachou-se no chão acarpetado junto ao filho. Era um desenho.

- Aqui sou eu?

- Sim. – Confirmara Blanket.

- Certo. Está é sua irmã.

- Aham.

- Este é Prince e você.

- Sim, papai.

- E quem é está aqui?

Uma empregada adentrara a sala anunciando:

- Tem uma pessoa que gostaria de lhe falar, Sr. Jackson.

Ele assentiu.

- Deixe entrar.

Logo depois de ter sido inocentada, era como se um enorme peso tivesse se desintegrado de seus ombros. Era bom ter a liberdade novamente em suas mãos e ter a certeza que poderia construir sua vida em alicerces fortes. Prometera a si mesma que teria uma, mas uma vida de verdade. Mas antes, faria o que há muito esperava por fazer. Retornara a sua antiga casa, onde os pesadelos começaram, sentindo as memórias apoderarem. Era como voltar à infância boa, que tivera um final ruim. Era difícil definir o sentia.

Pondo os pés sobre a escada que levava a porta, recordou-se onde sua mãe sempre deixava uma cópia da chave e sorriu por isso. Agachou-se enfiando os finos dedos numa pequena brecha na madeira da escada e ali estava.

Por um momento sentiu-se em casa, com a ligeira sensação que entraria na sala e encontraria sua mãe no sofá vendo a TV ou então na cozinha preparando algo gostoso para se comer, cantarolando enquanto organizava a mesa. Ou então, nas piores das sensações a encontraria na cama desacordada, desesperada por não saber o que fazer. E foi numa dessas andadas pela casa que ouviu um rangido na tábua abaixo de pé. Averiguando, pode perceber que um minúsculo filete de papel saía debaixo. Puxou-o. Começou a ler.



Jill Cássin caminhou até a sala de Steven Hunter, arrastando uma mala e com alguns documentos e um molho de chave nas mãos. Deixou os últimos na mesa dele. Steven procurou entender a situação.

- O que é isso?

- Pedi transferência para Kansas. Quero voltar para casa.

Aquilo não podia ser verdade.

- Mas você não me disse nada. – Havia um tom de decepção em sua voz. – Por quê?

- Não há nada em que eu possa fazer aqui. Não posso ser feliz aqui, Steven.

Ele se levantou, circundando a mesa até parar frente à ela.

- Não pode estar verdade. Sabe que é uma ótima profissional.

Cássin permitiu-se suspirar.

- Não é de carreira de se trata. – E se virou. – Preciso ir ou vou me atrasar pelo vôo. Obrigada por... tudo, Steven.

Estava prestes a experimentar a maçaneta quando a voz dele a deteve.

- Preciso que fique. Preciso de você, Jill.

Ela quis olhar, mas se segurou. Abriu a porta e seguiu em frente.

- Adeus.

Foi quando estava em frente a delegacia que ele pôde alcançá-la, agarrando-a pelos braços. Havia uma série de policiais, e mais alguns transeuntes quando ele a abraçou e a beijou. Eles vibraram.

- Não vá. Perdoe não ter demonstrado isso antes, mas eu não posso mais esconder isso de mim. Estou amando você. Quero que fique por mim, por nós.

Jill deixou escapar um sorriso emocionado.

- Pensei que nunca fosse dizer isso, Steven. Não faz idéia do quanto esperei.

Um policial parou entre eles.

- Certo, pessoal. Estou pegando minha mala senão eu vou perder meu vôo para Kansas.

Steven franziu o cenho. Olhou para Jill, e todos os seus colegas rindo.

- Você não ia...?

- Não.

- Então por quê...?

- Jamais iria dizer isso para mim se não tivesse algum motivo. Então, eu o criei. Eu também o amo, Steven.

Fora prenúncio de um belo casamento. Casaram-se dois meses depois em uma capela com um padre vestido de Elvis Presley na eterna Las Vegas.



Tracy resolveu percorrer o mundo. Dissipar a mente. Livrar-se dos fantasmas que a assombraram por tanto tempo. Caminhara por Itália, França, Alemanha e todos e quaisquer lugares onde muitos gostariam de estar. Recebera a herança de sua mãe logo após a absolvição e partira no dia seguinte numa espécie de busca por libertação e autoconhecimento. Mas foi retornando à pátria que se dera conta, a sua felicidade e paz interna estava ali, não muito longe.

Michael concentrava-se em sua carreira, o que depois de seus filhos era o seu maior bem precioso. Mas naquele exato momento em sua sala de estar, nada mais parecia ter a mesma importância.

- Olá, Michael.

Possuía uma postura diferente, um ar mais maduro, mais convencido de verdade, sua voz mais firme. Por um instante Michael pensou não a reconhecer.

- Como você anda? Por onde esteve? – Havia muitas outras perguntas que gostaria de fazer, mas procurou conter-se.

Tracy lhe sorriu, carinhosa.

- Estive vivendo, Michael. Descobrindo minha vida.

E parada por um mero momento olhando para ele, descobriu o que tinha de fazer.

- Isso é para você.

Ela abriu a bolsa e retirou uma carta, entregando logo em seguida. Ele examinou.

- Você só pode estar brincando!

Era um currículo.

- Quero me candidatar a vaga de Hélène.

Mais abaixo, Michael continuou a ler em voz alta, sorrindo. Tracy repetiu junto a ele em voz baixa:

- Posso me candidatar a vaga de seu coração também? – Ela terminou a frase por último.

Tracy deixou-se corar, mantinha-se mais linda como ele jamais havia visto antes. Então Michael respondera:

- Está contratada.

Ambos se ergueram, praticamente no mesmo instante.

- Basta selar o contrato, Srta. Tracy Gummer.

- E como eu faço isso?

Michael deu um passo, sorrindo, os olhos transparecendo felicidade.

- Vou te mostrar como.

Beijou-a. Foi como beber algo raro e único. Foi como queimar toda a dor e trazer paz ao mundo. Ao seu mundo. Saciar toda uma sede depois de um dia inteiro no deserto.

Era ali onde ela queria estar, era ali onde haveria de estar.

Diana Gummer pedira a Tracy que procurasse sua felicidade, que descobrisse sua vida, pois ela permaneceria viva em sua memória aonde quer que estivesse. Porque era sua mãe, porque a amava. E no fundo, Tracy já sabia que não era preciso que lhe dissessem aquilo, era como se ambos os caminhos já estivessem unidos por algo maior e desconhecido, algo sem igual.

Porque tudo estava ao redor da garota de lábios vermelhos.



Fim

98 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Sab Set 15 2012, 10:29

MirellaOliveira

avatar
Super Fã
Super Fã
Lábios Vermelhos está enfim finalizada. Pra quem leu, espero que tenha valido a pena. Pra quem um dia resolver ler, espero que aproveite.
Tenho mais duas fics aqui no fórum, e essas é pra quem se interessar (óbvio!) Razz:

Cliquem no título das fics.

Lives

Sinopse: Sarah Peterson é uma cardiologista do renomado
hospital Ucla Medical Center que precisa lidar com sua vida conturbada e
a de seu ilustre paciente, Michael Jackson.

Segredos Meus
Sinopse: O recomeço nunca é uma certeza. Os dias são uma caixinha de surpresa quando ainda se pode amar.

Todas foram feitas com um imenso carinho.

Até a próxima... se eu fizer outra fic. rs

Mirella Oliveira

99 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Ter Set 18 2012, 10:02

Miloca

avatar
Fã Veterano
Fã Veterano
Mirella florzinha!!!! Não acredito que terminou E, manola, que final foi esse?! Cara, eu li no sábado (mas tava muito tarde e minha mãe já estava me tirando do pc à força Razz e os caminhos da vida só me deixaram responder hoje Razz Razz Razz) e, tipo, to sem fala até hoje! Não sei expressar de tão bom que foi. Parabén de verdade florzinha ena que acabou
Olha, nem vem com essa de parar de escrever. Vc é muito boa pra não continuar com suas histórias. Acho que Lives eu já li (se não li, eu leio de novo! =P ), e é realmente muito boa. Pode ter certeza que vou ler segredos meus. Enquanto isso, vc vai escrevendo outra fic pra gente Wink #fikdik #caradepaumodeon Razz
Beijacksons florzinha. Adorei mesmo acompanhar essa história e espero poder acompanhar outras tbm. Até a próxima fic. I love you



100 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Ter Set 18 2012, 13:50

Drih Jackson

avatar
Fics
Fics
Essa fic eu não tive como ler, mas Segredos Meus eu li, e é ótima, realmente. Bom, mais uma fic finalizada, Mirella, você escreve muito bem, e acho que se escrever outra será melhor ainda.


_________________________
Exercito M.J
http://www.facebook.com/mjm

101 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Seg Out 08 2012, 22:32

sofit58

avatar
Super Fã
Super Fã
Legal!

102 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Dom Jan 27 2013, 19:20

Danda love

avatar
Super Fã
Super Fã
Adorei esta estoria, lascava as unhas no desvendar de cada estorias,kkkkkk...vc é uma excelente escritora ...ja li suas outras fics, e esta é a minha preferida.BJS.

103 Re: [FINALIZADA] Lábios Vermelhos em Seg Jan 28 2013, 00:23

Mariah Ramos

avatar
Super Fã Veterano
Super Fã Veterano
Interessante e criativa essa idéia... Michael sempre inspirando todas nós!!!

Parabéns!!!

Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo  Mensagem [Página 4 de 5]

Ir à página : Anterior  1, 2, 3, 4, 5  Seguinte

Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum